“Eu não acredito mais em governo“, diz ex-Ministro Alysson Paolinelli

A frase “Eu não acredito mais em governo“ foi dita por um brasileiro com a autoridade legítima: Alysson Paulinelli. E eu digo: “Estamos juntos nessa”.

No Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento tivemos um dos Ministros mais exemplares votado por unanimidade nacional: Alysson Paulinelli. Hoje preside a Associação Brasileira do Produtores de Milho – Abramilho.

A data desta entrevista considero emblemática para todo o país: 7 de dezembro de 2017. Estávamos num dos mais importantes eventos da fruticultura brasileira realizado pela Abanorte, na cidade de Janaúba, região de Jaíba, localizada no norte de Minas Gerais.

(Veja como foi o Abanorte Fruit Connections: http://www.abanorte.com.br/web/app.php/noticia_page/69).

No evento, frente a mais de 500 testemunhas, haviam produtores de frutas, técnicos, autoridades e a mídia, perguntaram sobre as necessidades do país em diversos aspectos, como infraestrutura, política das águas, acordos comerciais e plano agropecuário, e de forma assertiva o ex-Ministro Alysson asseverou: “Eu não acredito mais em governo…“, e alguém perguntou em seguida: “E no Governo Estadual?“ e finalizou dizendo: “Também não…”.

Entrevistado por mim, pedi sua autorização para expor essa sua convicção ao país, e devidamente autorizado o transcrevo, pois considero que o Brasil não está precisando de choque nenhum além do choque de liderança da sua Sociedade Civil Organizada.

Eu perguntei para o Ex-Ministro: “Por que não acredita mais em governo?”, e ele respondeu: “Porque governo só atrapalha. No Ministério da Agricultura, por exemplo, não temos autonomia para nada. As decisões caminham todas para privilégios de interesses político-eleitoreiros.”.

Então, concluo que passamos a ter no mundo e no Brasil um descompasso do compasso. Isso quer dizer que a sociedade planetária se movimenta na velocidade digital, e governos no passo lento do cágado abraçados à índole nata do bicho preguiça. Quando não, algumas vezes velozes movidos pela picardia dos ratos que adoram roubar os queijos das dispensas abertas da nação brasileira.

Exceções? Existem, como a ciência já descobriu, que servem para confirmar a regra. Então, resolvi fazer uma outra grande pergunta ao ex-Ministro: “Ministro Alysson, o que vamos fazer doravante?”

Sua resposta cravou fundo na nossa consciência. Foi um cravo doloroso carregado de incômodos que se voltam e apontam exatamente para nós: “Não podemos esperar por governos, precisamos pegar para fazer. Sair, negociar, ter uma voz unida e reunida, pois sabemos tudo o que precisa ser feito. Nossos especialistas, estudiosos, pesquisadores e analistas possuem preparo e diagnósticos muito bem feitos das necessidades estruturais do país, em todos os sentidos. Basta irmos e acompanharmos os congressos, as pesquisas, as apresentações e as entrevistas. O que vemos é repetir e repetir os mesmíssimos diagnósticos. O que varia apenas é a tonalidade, a assertividade e a criatividade dos apresentadores.”.

Sim, sabemos tudo o que precisa ser feito no Brasil. Então, por quê não fazemos?

Não podemos mais nem esperar por governo e também devemos parar de botar a culpa em governos. Perante a falência notória e exemplar do sistema de governança do Brasil exponenciado pelas prisões, acusações e escândalos de um conluio público privado, revelador de uma contabilidade campeã do mundo na sua soma de falcatruas.

Esperar pelo governo, pelo próximo presidente, pelos novos legisladores e pelos embates ideológicos de esquerda, direita e de intérpretes da Constituição e das leis seria fácil se não fosse a sua inviabilidade, ou pior, a insanidade dessa insensatez.

Então, qual a proposta? Precisamos de governo?

Sim. Mas não mais de um governo que faça as coisas olhando para seu umbigo ou para Brasília. Precisamos de uma governança, de um cogoverno. Um deveria permanecer dentro das representações da democracia, os partidos políticos, suas facções e sub facções, e que ao longo do tempo possamos aprimorar a sua qualidade. O outro governo é esse que o ex-Ministro Alysson explicitou em no evento. Um governo da Sociedade Civil Organizada não contaminada por ideologias e sem a infiltração político-partidária. Um norte pra o país, onde todos os setores empreendedores nacionais devem ter um projeto, assim como o agronegócio. Que seja sustentável, que contenha responsabilidade social e que signifique um plano diretor para o Brasil crescer, e idealmente, que todos esses setores consigam integrar seus planos entre todas as cadeias produtivas brasileiras.

“A democracia é o melhor sistema de governo do mundo, mas ele tem uma regra: quem está organizado faz, e quem não está sofre…“, disse Alysson Paulinelli.

E continuou: “Passei pelo governo e estudei muito e sei das deficiências que eu tive, eu não acredito mais em governo, e profundamente decepcionado, vejo que governo não tem capacidade de fazer as coisas. Há uma interdependência que não funciona no Ministério da Agricultura. Não tem autonomia, seus recursos estão em outro gabinete; a fiscalização imperando no Brasil como forma de criar dificuldades para vender facilidades. Por isso eu não confio…

A saída? O caminho? O agro tem soluções, gerou soluções e é o que mantém a economia. Esse agro não pode esperar pelo governo, pois ele só atrapalhou. Desde 1986 só fizeram bobagens… acabaram com os instrumentos de política agrícola. O governo se encurrala e só sobra pra ele o instrumento de taxas de juros para controlar inflação. Não acredito mais em governo, pois é uma bagunça.

Para todo brasileiro, segue o recado para 2018: Que a sociedade reaja a esse caos, uma crise moral, política e social. Reconhecer que como o agro, outros setores também podem se organizar e buscar dinheiro lá fora a melhores custos do que aqui dentro. A democracia é o melhor sistema de governo, e eu participei do governo militar e eu sei o quanto presidente Geisel e seu sucessor sofreram para a abertura democrática, mas democracia tem uma regra no mundo inteiro, e quem está organizado faz, e quem não está sofre…”.

José Luiz Tejon

Jornalista, escritor, professor.

Membro do CCAS – Conselho Científico Agro Sustentável.

Membro do conselho consultivo da ABMRA – Associação Brasileira Marketing Rural.

Colunista da Rede Jovem Pan, Revista Feed&Food e colunista no Canal Rural, com o blog Agrosuperação.

O Brasil sem autoridade moral pode ser fatal

O risco do Brasil precisa ser diminuído pelo protagonismo da Sociedade Civil organizada. Estamos numa gravíssima crise de autoridade moral

 

O Brasil é diferente da Tunísia em tamanho e conjuntura, que recebeu o Prêmio Nobel da paz em 2015 criando um quarteto do diálogo nacional para resgatar a autoridade moral de um processo político falido. Se reuniram, na época, a União Geral Tunisiana do Trabalho, a União Tunisiana da Indústria, Comércio e Artesanato, a Ordem Nacional dos Advogados da Tunísia e a Liga Tunisiana dos Direitos Humanos.

E no Brasil… por quê deixamos o país solto à sorte ou aos azares de uma impressionante crise da falência da autoridade moral?

Perante um quadro deprimente e incompetente de presidenciáveis, onde nas pesquisas mostram que 84% dos brasileiros dizem não conhecer ninguém que poderia resgatar o país – além do papa Francisco – e liderarem a intenção de votos: Lula, Bolsonaro e Marina?

Ou a Sociedade Civil Organizada age ou permitiremos que a marcha da insensatez faça seu caminho incerto e insensato. Democracia não é sinônimo de partidos políticos, pois eles significam uma forma organizada de representação pública.

Você colocaria o condomínio onde mora sob a guarda do atual Legislativo ou do Executivo?

Democracia exige e clama em altíssimo e bom som pela Sociedade Civil Organizada, movimentos populares, associações de bairros, ONG’s, entidades de classes, sindicatos, e sem dúvida, as Confederações Nacionais Empresariais.

Estas últimas, na forma de dez mega instituições com registro sindical e mais duas sem registro sindical simplesmente compreendem todo o PIB não governamental do Brasil. Tem estrutura, recursos humanos, orçamentos e arrecadações que agora sofrerão um abalo pela lei que desobriga o pagamento aos sindicatos, seja dos trabalhadores ou patronais de forma involuntária.

Entretanto, ai estão as representações patronais da economia empreendedora brasileira e também da cooperativista: Confederações Nacionais da Agropecuária, Comércio, Bens, Serviços e Turismo, Cooperativas, Indústria, Transporte, Seguros gerais, Previdência Privada e Vida, Saúde Suplementar e Capitalização, Instituições financeiras, sistema financeiro, comunicação social, saúde, hospitais, estabelecimentos e serviços, serviços e turismo.

Aí estão as doze representações da Sociedade Civil Organizada Empresarial do país.
Para virmos a ser uma grande Tunísia, seria desejável reunirmos os sindicatos dos trabalhadores. Seria possível? Me parece que não, por divisões internas e também por evidentes contaminações político-partidárias.

Numa conjunção de um projeto brasileiro que objetivasse pairar acima dos desígnios e destinos das eleições de 2018 e que significasse um 4° legítimo poder de cogovernabilidade para o pais, deveríamos incluir a OAB, a Academia Brasileira, Direitos Humanos com a mídia, na busca de um projeto de nação, integrando aquilo que precisa ser feito no Brasil independentemente de quem venha a ser o presidente, governador, deputado ou senador.

Curiosamente em algumas cidades brasileiras já assistimos essas iniciativas de governabilidade com ótimos resultados, como por exemplo, em Maringa, no Paraná e Caçador, em Santa Catarina.

Você pode pensar que a complexidade brasileira não permite reunirmos essas instituições todas por um chamado de bom senso de sensatez, os conflitos de interesses são imensos. Ok, não somos a Tunísia e nem chegamos ao ponto de não retorno daquela sociedade em guerra civil que a levou a uma obrigatória lucidez, criando o “Quarteto do diálogo nacional, resgatando a autoridade moral tunisiana“ com o emblemático Nobel da Paz.

Será que pelo menos as doze Confederações Empreendedoras do país não deveriam se unir, criar um projeto de empreendedorismo, cooperativismo e apresentar à nação, o que precisa ser feito, construído, e efetivado para que o Brasil não padeça da doença da inanição educacional, tecnológica, produtiva, competitiva, legal, ética e moral?

Não deveríamos criar programas unindo as doze Confederações, coletar o que há obrigatoriamente de interesses sinérgicos e comuns entre elas, para formar um pacto pelo progresso e sustentabilidade do Brasil?

Esse plano Brasil 2030 empreendedor, cooperativista, humano e sustentável seria o documento régio, explicitado por legítimos poderes da Sociedade Civil Organizada. Começar com as doze confederações, com doze presidentes com poder e obrigações civilizatórios que reúnem todo o PIB brasileiro, e a partir dessa locomotiva de negócios, da economia e das finanças atrair demais representações da Sociedade Civil Organizada Brasileira sob um foco e uma luz ascensional?

Uma utopia, uma ilusão ou um sonho?

Fico com o sonho do realismo esperançoso. Isso é possível e só depende de alguns brasileiros nos cargos e nas posições se movimentarem para isso. Só depende de líderes e de lideranças.

Da para fazer, pois afinal, como já cantamos um dia: “Quem sabe faz a hora não espera acontecer“.
Quem diria, companheiros! Tal qual na China, o caminho a ser forjado está sob a bandeira da produtividade e do empreendedorismo capitalista com fortíssima dose de cooperativismo, mas isso sim é de verdade uma análise concreta de situações concretas.

Sem autoridade moral, não tem autoridade legal. Pode ser fatal. Não podemos esperar por um presidente por mais que isso possa parecer ser suficiente.