O meu amado comunista

O meu comunista nasceu em uma família pobre, numa aldeia de Trás-os-Montes, em Portugal. Aos sete anos parou de frequentar a escola, pois precisava trabalhar para ajudar a mãe e os outros três irmãos pequenos.

 

Fez de tudo. Trabalhou com enxada, tirou leite das vacas e dormiu com as cabras no campo frio. Era vendedor nas feiras da cidade e foi aprendiz de tudo e de todos. Depois de algum tempo, foi barbeiro e microcomerciante.

 

O meu comunista fugiu da miséria para o Brasil, assim como milhões de imigrantes pobres do mundo. Foi estivador no Cais de Santos, e ali se orgulhava da sua força.

Ele conseguia levar dois ou três sacos de café de 60 kg, ao invés de apenas um.  Nos intervalos, brincava mostrando como conseguia carregar o mesmo saco de 60 kg nos dentes.

O meu comunista esperava ansioso pela justiça e a igualdade para todos. Sonhava com um mundo onde todos pudessem estudar, onde ninguém fosse escravo do outro. Um mundo com trabalho para todos.

O meu comunista acreditava no fim da exploração do homem pelo homem. Um lugar onde todos teriam as suas casas para viver, a comida para comer, o estudo para crescer e o trabalho para se dignificar.

O meu comunista acreditava que a solução seria a mudança do sistema, onde o comunismo seria a solução do sofrimento humano na terra. O meu comunista me falava da honra, da palavra, da honestidade, do valor do trabalho.

Para o meu comunista não havia honra e valor maior do que o trabalho honesto. Ele dizia: “Nunca tirar nada de ninguém. A verdade acima da mentira”.

O meu comunista dava lições de valores, de humanismo, solidariedade e profundo respeito as pessoas. Falava da educação como o berço do novo ser humano, e caia lágrimas quando se lembrava do dia em que não pode mais voltar a escola.

O meu comunista me estimulava a estudar. Me mostrava como era o trabalho. Me levava para ver o sofrimento humano e aprender a valorizar a vida. Também me levava nas festas, nas músicas, nas danças portuguesas. e o seu sonho era que eu fosse um homem de caráter, estudado, e um bom comunista.

O meu comunista me ensinou a coragem.

 

Ele morreu cedo, aos 64 anos… morreu trabalhando. Com sua bicicleta fazia cobranças de sócios da Portuguesa Santista e do Rancho Folclórico Tricanas de Coimbra.

No cruzamento de uma rua, não viu o caminhão, ou o caminhão não o viu, e meu comunista caiu e bateu sua cabeça no meio fio, um duro e frio meio fio numa rua de Santos.

Quando vejo hoje em dia pessoas como Lula, Dilma, Dirceu, Gleisi e outros sendo chamados de comunistas, não compreendo. Eles não são nada parecidos com a descrição que o meu comunista fazia dos honrados comunistas.

Claro, esse pessoal que é chamado de comunista, obviamente não é comunista. Comunista mesmo era meu pai.

Sempre me emociono quando me lembro do meu comunista falando emocionado e orgulhoso sobre a possibilidade da vitória da humanidade, do trabalhador e dos seres honestos sobre a humilhação, o abandono e a escravidão.

Um comunista como o meu não morrerá nunca. Mas os falsos destroem suas próprias vidas, enganam seres humanos, e terminam destruídos pelo pior de todos os enganos, o autoengano.

Sinto muitas saudades do meu comunista. Meu pai adotivo, Antônio Alves, muito acima do comunismo, me ensinava a honra do trabalho, o valor da palavra, a justiça da solidariedade… se isso é comunismo, eu também, velho pai, sou comunista.

 

Você cruzaria o oceano e enfrentaria uma fila só para comer um doce?

O que é mesmo valor?

A criação do valor está nas coisas, mas a captura do valor não está nas coisas. Se alguém dissesse: “Pessoas viajam de um lado para outro do mundo, ficam numa fila e pagam para simplesmente comer um doce.

 

Você diria que essas pessoas são loucas ou irracionais?

 

Nessas observações residem provocações importantes para discutirmos o que significa valor. E claro, o que isso tem a ver com você, comigo, com as nossas vidas.

 

O famoso Pastel de Belém nasceu na cidade de Lisboa, em Portugal. Turistas do mundo todo vão para saborear esse doce, que geralmente é vendido em uma casa estilo à moda antiga portuguesa, com ladrilhos.

 

Há fila para entrar, para ser atendido, para sair e pagar. Ao lado, há um Mc Donald’s, Starbucks. Mas é na velha casa portuguesa que com certeza reside uma gigantesca captura de valor.

 

Desde 1837, Os famosos Pastéis de Belém são feitos com açúcar, gema de ovo, leite, e a farinha. Uma Commodity. Porém, o valor é extraordinariamente maior. Ali é a ‘casa dos Pastéis de Belém’.

 

O valor não está nas coisas, o valor está em quem faz o quê com as coisas!

 

Então, pergunto: “Quem é você?”

O valor não está na ‘coisa’ e sim o que fazemos com a ‘coisa’

As coisas em si não têm valor. O sentido que alguém dá a elas, sim.

Sardinhas ao longo da história foram consideradas um alimento de baixo valor estimativo. Evidentemente não, quando as olhamos nas deliciosas festas portuguesas das sardinhas assadas com azeite.

 

Fora o folclore, aumentar e capturar mais valor das antiquíssimas sardinhas, e principalmente delas em lata pode parecer um esforço em vão e infrutífero.

 

Engano. A captura de valor nunca está na ‘coisa’ e sim na resposta “à quem”.

 

No aeroporto de Lisboa, o trabalho da Associação Portuguesa do Negócio da Sardinha dá um show de ampliação de valor. Um reino fantástico da sardinha portuguesa foi criado.

Com um pouco de imaginação as sardinhas em lata são reveladas como rainhas. As latas todas com datas dos anos marcam a vida dos que passam e não conseguem, ao parar, sair sem comprar a sua lata de sardinhas portuguesas ao azeite.

A sardinha literalmente virou rainha.

Num trono, tal qual uma rainha, lá está a sardinha em lata com o ano de JK Rowling, autora da série Harry Potter, que viveu em Portugal.

Mundo Fantástico da Sardinha Portuguesa

 

O valor não está nas coisas, mas em quem faz o que com as coisas.

Então pergunto: “Quem é você?”