A Teoria da Superação na Prática da Educação


“Não superar representa no ápice da condição humana a mais ampla de todas as humilhações, pois representará se render ao movimento da natureza humana do viver, ou seja, o mal moral mais cruel.” (Morin, 2011, p.119).

Quando dona Jô criou a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) para enfrentar as dificuldades com seu filho Zequinha, o caminho foi a educação. Quando o adolescente Edson Arantes do Nascimento, que viria a ser o atleta do século Pelé, aos 15 anos de idade decidiu não deixar o campo do Santos num alvorecer, para fugir de volta para a casa dos pais em Bauru, a razão fundamental estava na sua educação. Da mesma forma, quando Alexandre Costa iniciava o que veio a ser a maior franquia de chocolates do mundo, a Cacau Show no Brasil, de novo ali estava na alma da coragem dos seus enfrentamentos o poder da educação, onde da mesma forma, o modelo do seu negócio, franquia, se baseia na formação e na educação de milhares de empreendedores. E ainda, quando Shunji Nishimura, fundador da Jacto na cidade de Pompeia, pegou o trem em São Paulo, como mais um dos milhões de pobres imigrantes que vieram ao Brasil no século XX, e tomou o destino de ir para a então última estação de trem daquela linha, nessa sua decisão, da mesma forma, levava consigo uma valorosa carga de valores, aprendidos na vital arte humana do viver, a educação.

Esses quatro casos foram alvo da pesquisa da minha tese de doutorado: a pedagogia da superação . A inspiração me foi dada pela Prof. Dra Marie Lissette Canavesi Rimbaud, minha orientadora, e professores com os quais convivi na UDE (Universidade de la Empresa ) no Uruguai. Um incômodo poderoso nascido da inquietação de tratar esse tema essencial para cada ser humano, a Superação, por um caminho até então não transformado numa tese de doutorado me foi sugerido. Tema pleno de livros de autoajuda pelo planeta afora, onde comprovo nesta pesquisa ser simplesmente impossível superar só. Mesmo quando acreditamos que sozinhos vencemos, suplantamos, não mais nos acomodamos na mesma camada e damos um salto, ali estão presentes guerreiros, mentores e heróis invisíveis.

Professores que nos marcaram a vida desde a mais tenra infância. Vizinhos, parentes, amigos e até mesmo seres humanos onde num breve e rápido encontro nos redirecionaram o nosso olhar, e como Platão asseverava: “não podemos colocar nas almas o que elas já não carreguem, educar é direcionar o próprio olhar”. Significa foco. Como autor da tese, fui estudado e mencionado num livro feito nos Estados Unidos – “Succeed on your own terms”, de Herb Greenberg e Patrick Sweeney. E nesse livro os autores destacaram que a definição de sucesso que englobava todas as demais e as transcendia (dentre mais de 40 casos internacionais estudados) dizia “sucesso é manter viva a criança que você foi, e saber que ela está presente em tudo o que você é e que você faz” de minha autoria.

 

E nos estudos realizados sob a epistemologia da fenomenologia hermenêutica, tanto nos casos acima tratados como num caso comunitário de vítimas e parentes da boite Kiss, de Santa Maria, Rio Grande do Sul, onde 242 pessoas perderam suas vidas, ali se faz presente como ingrediente poderoso da superação a presença dessa alma infantil como alavanca motriz para renascer, e, com ela, um dos fundamentos apresentados na tese, “aprender, acreditar, criar e inspirar”. Para superar não seremos mais os mesmos, deixaremos pedaços e retalhos de cada um de nós, construiremos identidades aprimoradas e na base real, legítima e concreta disso tudo, superação da teoria para a prática se faz pelo caminho da educação.

 

Marcos teóricos selecionados depois de centenas de fontes e leituras, encontros obtidos no diálogo com professores e no ateneu da universidade, concluímos por reunir e integrar quatro pensadores da libertação humana. Afinal, superar será sempre libertar-se das opressões e de opressores. Makiguti, pedagogo japonês, contribui com a clareza da importância da geografia humana. Se não aprendemos no lugar onde nascemos, onde estamos, jogamos fora o mais natural aprendizado à disposição. E ainda Makiguti nos revela, na sua pedagogia da felicidade,  uma das mais definitivas definições de superação: “criar valores a partir da sua própria vida, sob quaisquer circunstâncias, e valor quer dizer fazer o bem, o benefício e o belo”. Aí reunimos outro fundamento encontrado na tese como fórmula de conteúdo: o amor, o labor, a ética e a estética.

Freire, pedagogo brasileiro,com a pedagogia da esperança aporta nesse diálogo de teóricos a necessidade da busca do inédito viável, do ato limite e da consciência do que “precisamos fazer agora para que seja possível realizar amanhã, o que agora não pode ser efetivado

Edgard Morin sustenta ser necessário uma mutação na educação mundial, reintegrando ciências e conhecimentos que foram separados e que somos uma resultante “bio psico social”. Morin coloca por terra separações entre educação informal versus formal. E nos reúne de novo enquanto o homo sapiens, com o demens (delirante). Do homem Faber com o lúdens (o fabricador com o lúdico) e do homem economicus com o mythologicus, o que sonha, imagina e inventa mitos. Isso se faz necessário.

Victor Frankl, criador da terceira escola de Viena, após Freud e Adler, a logoterapia, nos ensina a buscar um sentido e um propósito pelo qual vale a pena viver e até morrer. Frankl registra que quando encontramos um “por que”, iremos descobrir o “como”. E ao ser perguntado sobre a forma para encontrar sentidos, Frankl escreveu: “para buscar sentidos é necessário prestar atenção em pessoas que sob as mesmas circunstâncias conseguiram superar e comparar com outros que não conseguiram”. A pedagogia de Frankl tem elevada força no aprendizado do olhar. Me transformarei na qualidade dos seres humanos que aprender a admirar.

Numa sala de aula, um professor , além do ensino da matemática, da física, da sociologia, ali está um líder pedagogo inspirador. Vai ensinar a convivência, o poder da cooperação, a ética da competição, a vontade para ser um humano que irá se comportar com o poder máximo de “aprender a aprender”.

A tese: A Pedagogia da Superação foi apresentada e compartilhada com a sociedade, no Colégio Sérios, uma escola na cidade de Brasília, para quatro segmentos de públicos: autoridades do ensino, professores, pais e alunos e obteve ali validação das suas hipóteses. Também no Hospital Cruzeiro do Sul, as psicólogas do setor de treinamento aplicaram conceitos da tese e obtivemos validações dessas descobertas.


As hipóteses de que 1 – “é impossível superar os desafios e o ambiente competitivo isoladamente, se confirmou. 2 – “a percepção de dor, sofrimento, é relativa de pessoa a pessoa”, confirmada. 3 – “a partir da superação de aspectos médicos, traumáticos ou físicos, a superação mental vai exigir o desenvolvimento de foco e concentração em trabalho, obra, criação a partir de talentos e habilidades desenvolvidos”,igualmente se confirmou. 4 – “a superação será dependente da existência de líderes, educadores, ou pessoas que estejam nesse papel e por isso será exigida uma formação exclusiva perante a circunstância dada”, foram as quatro hipóteses confirmadas. E cinco são os fundamentos encontrados e classificados que formam essa teoria e pedagogia da superação: 1 – o princípio da superação: o descobrimento das possibilidades. 2 – o plano de superação: pensar nos sentidos que a sua vida pode elencar. 3 – conteúdo da superação: criação de valores, o amor, labor, ética e estética. 4 – procedimentos de superação: aprender, criar, acreditar, admirar/inspirar. 5 – atitudes de superação: resultado de todo processo de aprendizagem e adaptação às novas demandas da vida. O protagonismo, não vitimização e o reviver da criança interior.

Esta tese, pioneira no espaço do doutorado, com certeza irá abrir caminhos novos para múltiplos estudos que trarão cada vez mais luz, sobre essa condição humana vital de superação, agora conscientes de que a sua prática passa pelos inexoráveis degraus da educação. Afinal, quem supera, educa!

A partir dos seus resultados essa tese permitiu elaborar um desenho de aplicação da Pedagogia da Superação , utilizando um corpo multidisciplinar, mas sob a coordenação de um mediador educador. “Do jardim da infância ao doutorado não sou um só. Sou a somatória de retalhos e pedaços dos meus educadores. E hoje, pela reunião de todos eles, me sinto guiado. Obrigado a todos e às maiores educadoras do mundo – as mães. A minha mãe me fez prestar atenção nas batatas – dirigiu o meu olhar”. * José Luiz Tejon.



Agradecimento especial a Profa. Ana Claudia Barreto, pela imensa dedicação em toda a metodologia, Profa. Esther Gamio, ao ateneu UDE, Prof. Dr. Marcos Cobra que me carregou ao doutorado. Aos membros do tribunal: Profa. Dra. Graciela Fabeyro, Prof. Dr. Eniel Espírito Santo, Prof. Dr. Ronilson de Souza Luiz. E para sempre na minha vida minha orientadora Profa. Dra .Marie Lissette Canavesi Rimbaud e a todos os meus colegas alunos e funcionários da UDE Uruguai.

 

*Sobre José Luiz Tejon:  Dr. em Educação pela UDE/Uruguai; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Mackenzie;  jornalista e publicitário formado pela Casper Líbero. Administrador com ênfase em marketing, com especializações na Pace University/EUA, Harvard/EUA, e MIT/EUA. Em liderança tem especialização no INSEAD/França. Ministra aulas na Audencia Business School (França). É Top of Mind de RH, considerado uma das maiores autoridades nas áreas da gestão de vendas, marketing em agronegócio, liderança, motivação e superação humana. Troféu Great Speaker Olmix em Paris, França.No total são 33 livros publicados em autoria e coautoria.

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