A lenda nasceu com Garrincha

* Publicado na Gazeta Esportiva de 11/09/1980

1 – Ninguém, como ele, mais perto do inferno
2 – “Em 62 quase “matei” o goleiro inglês”
3 – “Não sou irresponsável. Acreditei em todos”

Garrincha é uma lenda. Uma vida repleta de vitórias e derrotas.

Uma existência confusa e atribulada. Os momentos de alegria que ele provocou, continuam gerando um enorme carinho por parte do torcedor brasileiro. Não está apagado na imagem, na memória da humanidade. Ainda não surgiu em sua posição um herdeiro capaz de substituí-lo.

Sempre e sempre, quando se escolherem os 10 maiores, desde que o futebol existe, obrigatoriamente o nome de Garrincha será incluído.

Suas pernas formavam um arco. A esquerda, onde a deformação era mais notável, tinha seis centímetros mais que a outra. Já era um milagre que andasse, inadmissível que jogasse futebol.

A lenda nasceu junto com Garrincha. Torto e desajeitado deu – no primeiro treino – meia dúzia de dribles “num tal de Nilton Santos”. Sua genialidade cresceu na Suécia em 58 e tornou-se infinita no Chile em 62. Esfriou na Inglaterra em 66. desapareceu na poeira dos campos anônimos da Colômbia, Uruguai, Argentina e Itália. Reapareceu no Maracanã por alguns instantes. Quase vinte anos de glorias e humilhações, de heroísmos e ingenuidade. Garrincha sequer suspeita de sua existência. Abatido pela bebida e pelas mulheres. Machucado por falsos amigos e dirigentes oportunistas. Mas a lenda resistiu a tudo isso. Garrincha é uma imorredoura lembrança de alegria.

O povo sabe, mas não quer saber, que perdeu para sempre sua alegria. Garrincha não está apenas mais gordo, mais lento e mais velho, mas também um pouco mais triste.

Nenhum jogador brasileiro, salvo Pelé, mereceu mais o paraíso do que ele. Nenhum jogador da sua categoria chegou tão perto do inferno.

Garrincha saíra das paginas esportivas para as manchetes dos jornais de escândalo, encantados com a notícia de que ele deixara a mulher e as oito filhas em Pau Grande, para viver com a cantora Elza Soares. A mulher sueca não era esquecida e muito menos a Iraci, sempre disposta a tê-lo nos braços, nos momentos difíceis. As notícias sobre suas dívidas cresciam como só os rumores sabem crescer. Não bastava, assim, que Garrincha não tivesse nada. Era necessário que ele, quase derrotado, ainda ficasse devendo.

As coisas melhoraram um pouco. Alguns verdadeiros amigos apareceram. Surgiu Vanderléa – viúva de Jorginho Carvoeiro – com quem Garrincha vive há três anos e uma nova e brilhante luz surgiu sobre a lenda Garrincha.

Na verdade a vida de Garrincha é uma peregrinação que ainda não terminou. Mas como todo personagem principal de uma lenda, ele tem fé, esperança, amor e forças para continuar resistindo. É uma lenda.

Com os cabelos grisalhos, pele queimada pelo sol de tanto correr atrás de uma bola – está jogando pelo Milionários, uma equipe de veteranos, onde ganha por partida 15 mil cruzeiros – e sentado num sofá gasto pelo tempo, Garrincha vai falando de sua vida:
“Tenho 46 anos de idade, 17 anos como jogador profissional percorrendo o Botafogo, o Corinthians, o Flamengo e o Olaria”.

“Nem lembro quantas vezes joguei por uma Seleção do Brasil. Sou desligado mesmo. Mas dois jogos ficaram marcados para mim: contra o Chile e contra a Rússia, mas a partida mais difícil foi mesmo contra a Hungria em 1958”.

“Não foi difícil chegar ao Botafogo. Jogava bem lá em Pau Grande e surgiu o Arati e levou-me para o Botafogo. Antes, um senhor chamado Manoel, sócio do Vasco da Gama, que resolveu levar-me para treinar em São Cristóvão. Mas esqueci de levar as chuteiras e não pude treinar. Alguns dias antes fui tentar a sorte no Fluminense e como tinham muitos rapazes esperando por uma chance, também não pude passar por um teste”.

“Bem, no primeiro treino no Botafogo fui marcado por um moço forte e elegante. Deitei e rolei. Então fiquei sabendo que o meu marcador tinha sido o Nilton Santos. Depois, tudo ficou mais fácil”.

Uma partida entre Flamengo e Botafogo, no Maracanã, jamais será esquecida por Garrincha:  “Em 1962, marquei três gols e naquele jogo eu fiz tudo. Que coisa linda…”.

O gol mais bonito também tornou-se inesquecível: “Foi contra a Inglaterra em 62. Recebi um passe do Didi, parei e meti de curva e matei o goleiro”.

Em 1966 a maior decepção: “Deu tudo errado. Um time sem nenhuma organização. Quase 50 jogadores. Alguns foram crucificados, entre eles, eu. Foi uma mágoa muito grande.

Com Garrincha, um ataque incrível: “Acho que comigo pela direita, Didi, Pelé, Vavá e Zagalo formou-se o melhor ataque de todos os tempos”.

Os ponteiros estariam liquidados?

“Que nada…gosto muito do Nilton Batata. Acho que um ponteiro tem que partir para a linha de fundo. Esse é o verdadeiro jogador. Cabe ao treinador aproveitá-lo assim. É um crime tentar alterar a nata característica de um atacante. Se eu tivesse que jogar hoje garanto que jogaria exatamente como eu joguei no passado. Deu certo e eu não seria burro de mudar o estilo”.

Garrincha começa a contar capítulos de uma vida muito atribulada. Ganhou e perdeu muito dinheiro: “No Botafogo eu sempre fui um jogador que fiz péssimos contratos. Nunca recebi luvas no Botafogo. Somente em 1962, como bicampeão do mundo recebi luvas por um contrato de três anos. Eu sempre assinei contratos em branco. Queria mesmo era jogar…”.

“Em 1963 fiquei sabendo do interesse do futebol italiano pelo meu futebol. Sonhava jogava no exterior. Mas o Botafogo pediu um milhão de dólares e a Itália admitia pagar setecentos mil dólares. Foi um sonho que não consegui realizar e perdi muito dinheiro”.

“Quando eu era menino eu sonhava conhecer o México. Um dia o Botafogo foi jogar lá. Larguei as malas no hotel e vi tudo aquilo que estava acostumado a ver nos filmes. Existia tudo mesmo…”.

“O dinheiro que eu arrecadei não foi bem aplicado. E assim perdi quase tudo. Comprei ações e elas caíram na cotação e é claro que fiquei mais pobre do que antes”.

“E o que sobrou dei tudo para a minha mulher e para as minhas filhas. Não pensei em ficar com nada. Não era justo guardar alguma coisa…”.

Nair, Iraci, Elza, o caso sueco, e Vanderléa. As mulheres da vida de Garrincha. Ele continua gostando de todas: “A Elza foi embora. Achei uma falta de respeito. Quando a gente gosta não abandona alguém. Eu gosto dos meus pássaros e não os abandono”.

“Ela fugiu de mim. Temos um filho, que não vejo há três anos”.

“Estou vivendo há três anos com a Vanderléa. No início do próximo ano nascerá um filho e neste momento sou feliz”.

“Com a Nair não deu certo porque ela não caminhou comigo. Eu andei e ela estacionou. Foi melhor a separação. Surgiu a Elza e fiquei com ela por 16 anos seguidos”.

“Quando era menino namorei com a Iraci. Quando fiquei moço voltei a encontrá-la. Temos dois filhos e está sempre disposta a receber-me quando tenho problemas. É muito boa”.

“A sueca foi um caso rápido. Quando conquistamos a Copa do Mundo ela estava lá. Mantive um caso e temos um filho que está já na universidade. Não sei dela há muitos anos”.

“Mas tenho que agradecer mesmo é a Vanderléa. Ela salvou-me. Saí de um verdadeiro buraco. Estava tomado pela bebida, sem forças para reagir. Ela agarrou no meu braço e começou a caminhar comigo. Estou recuperado e devo tudo a ela”.

Perdeu todo o dinheiro arrecadado numa partida amistosa marcada exatamente para ajudá-lo: “A Elza resolveu comprar uma churrascaria”.

“Tentei explicar que ela não poderia ficar na churrascaria e eu também não. Quem iria tomar conta?”

“Mesmo assim comprei, paguei um milhão e duzentos mil cruzeiros e a churrascaria faliu. Perdi todo o meu dinheiro”.

E a bebida?

“Quando a Elza foi embora eu comecei a beber muito, muito mais. Apareceu a Vanderléa e tudo melhorou. Com ela chegou novamente a minha alegria”.

“Sem ela eu teria morrido”.

“Tenho 12 filhos. Um menino com a Iraci, outro com a Elza, outro na Suécia e espero que este que nascerá em janeiro seja menino. Tem que surgir um outro Garrincha”.

E o desfile na Mangueira?

“Foi bom. Chamou a atenção de muita gente. Depois do desfile apareceu muita gente tentando ajudar-me. Valeu”.

E os falsos amigos?

“Sempre existiram. A gente tem que aprender a conviver com isso. Procuro não fazer inimigo, mas às vezes isso é impossível”.

Na opinião de Garrincha, excluindo Pelé, Zizinho foi o melhor jogador do futebol brasileiro: “Ele era um gênio, e muita gente acha isso”.

Jogando pelo Milionários, Garrincha está ganhando muitos presentes: “No interior tenho encontrado muitos fazendeiros ricos e chego em casa com sacos de arroz e feijão”.

Mané Garrincha gosta de Zagalo como técnico, enaltece Zezé Moreira, ainda confia em Coutinho e acha que Telê Santana entende mesmo de futebol. Sua seleção é a mesma do atual treinador da CBF apenas incluindo o ponteiro Nilton Batata.

Este é o Garrincha, uma verdadeira lenda. Que continua ingênuo. Que ganhou um automóvel de presente e nem foi vê-lo preferindo vendê-lo pela metade do preço. Que saltou do trem e caiu num enorme buraco e que foi até mordido na Espanha por um desesperado marcador adversário. Que tem mágoa de Filpo Nunes na sua passagem pelo Corinthians e adora o técnico Osvaldo Brandão.

Continua mais vivo do que nunca o Garrincha, lenda, gênio, mito.

Volta a respirar o homem Mané que promete nunca mais beber, que quer mais filhos e ser feliz com Vanderléa. Uma vida intensa, dramática, engraçada, e marcada pela vontade de acertar.

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