Cerezo joga. Careca volta. Destinos diferentes

* Publicado na Gazeta Esportiva de 17/06/1982

CerezoSEVILHA (de Wanderley Nogueira, enviado especial de A GAZETA ESPORTIVA) – Em momento ao longo da preparação do selecionado brasileiro. Telê Santana deixou de afirmar que Toninho Cerezo estria no time do Brasil, se não estivesse suspenso, impedido de jogar o primeiro jogo, contra a União Soviética. Mas a atração de Telê pelo futebol de Cerezo é tamanha que, mesmo sabendo que não poderia contar com o jogador do Atlético Mineiro na abertura da Copa – para os brasileiros -, Telê colocou o time no último amistoso realizado no Brasil, diante da Irlanda.

Era só uma questão de tempo. No momento em que Telê pudesse usufruir do trunfo Cerezo, mas não pensaria duas vezes. Mas quem deveria sair do time para dar lugar ao Toninho Cerezo?

Há algum tempo atrás, falcão seria o homem que iria para o banco, mas o “Rei de Roma” provou dentro do campo que tem um lugar no time, que seu futebol é imprescindível para o selecionado. Sócrates foi citado como reserva de Cerezo. Então o jogador do Corinthians provou que líder, que tem voz de comando e muito futebol. Estreou bem na Copa do Mundo, fez um bonito gol, ajudou na marcação e soube fugir da perseguição soviética.

Zico não foi bem, ainda está devendo, sente algumas dores musculares na perna esquerda, mas irá se recuperar-se até a hora do jogo e não sairá do time. Além de tudo isso, Zico tem uma espécie de trauma por não ter jogado bem em 78 e não pretende sair do time sem provar suas qualidades inegáveis.

Mas e o Cerezo?

Telê insiste em não dizer quem sairá do time. É algo que só anunciará nesta quinta-feira, depois do treino de Mairena. A grande maioria garante que Paulo Isidoro – Dirceu perdeu posição parta o jogador do Grêmio – será aquele que vai dar lugar ao Cerezo. Outros, considerados também bons observadores, apostam que Serginho é quem será sacado do time para a entrada de Toninho Cerezo. Cerezo entra no meio-campo e Sócrates iria um pouco mais a frente, formando o “quadrado mágico” que Telê Santana não aceita, pois “poderia chamar de inventor e eu não invento nada…”

Uma coisa entretanto está definida: Toninho Cerezo contra a Escócia amanhã. A alegria de Cerezo é muito grande e ele demonstra entusiasmo pelos corredores do Parador Carmona:

“Estava esperando por este momento, quando fui expulso e depois informado que não poderia participar da primeira partida da Copa do Mundo fiquei muito abatido. Imaginei que nem mesmo participaria de outras convocações. Cheguei a pensar que estava fora dos planos do técnico Telê Santana.”

“Depois de sentir que teria chance, que dependia apenas de mim, intensifiquei os treinamentos. Deixei claro ao técnico Telê Santana que minha vontade de colaborar e jogar era enorme. Claro que minhas possibilidades eram bem menores que a dos outros jogadores. Afinal, eles estavam com condições de jogar, treinando entre os titulares e tudo bem…”

“A minha situação era delicada. Tinha que treinar como titular, no time reserva. Tinha que provar que poderia ser utilizado no time, sem ter permissão para jogar no primeiro jogo.”

“Logo após a partida contra a União Soviética, o técnico Telê Santana anunciou que eu entraria no time no jogo contra a Escócia e seguindo um critério já conhecido, deixou para anunciar quem sairia do time, um dia antes do jogo.”

“Confesso que estou feliz por receber a chance de atuar como titular. Não irei deixar escapar. Não sei quem sairá, mas eu quero jogar e não escondo isso de ninguém. Não posso decepcionar o técnico da Seleção Brasileira, nem os companheiros que acreditam em mim.”

Enquanto no salão Telê concede entrevistas, Cerezo vai revelando a sua alegria, agindo como um homem que realmente estava preparado para receber a notícia que jogará contra a Escócia, Careca colocou timidamente o rosto entre as grades de uma janela e anunciou que voltará para o Brasil nas próximas horas:

“Ontem à noite surgiu um grande hematoma na virilha, comprovando uma hemorragia no local contundido – virilha – e não adianta ficar aqui na Espanha. Tenho ficado muito só. O pessoal sai para treinar e é claro que eu não posso ir junto. Preciso ficar em tratamento e isso é terrível.”

“Pedi ao doutor Medrado Dias que autorizasse a minha volta. Continuarei o tratamento em São Paulo, perto da minha família e a dor que estou sentindo dentro do peito talvez diminua…”

“Aliás, o abatimento que estou sentindo por ter sido cortado é maior que a dor na virilha. Foi um verdadeiro golpe que recebi quando o doutro Neylor e o doutro Medrado disseram que a contusão era grave e que eu não poderia participar de uma disputa como essa. Tive vontade de chorar a frente deles, depois resisti. Quando eles saíram, as lágrimas correram.”

“Hoje estou consciente de que foi uma experiência dura, mas muito proveitosa. Foi uma verdadeira lição de vida. Tenho certeza de que serei o centro-avante titular da seleçaõ na Copa de 86. Sei das minas qualidades e alem de tudo sou jovem.”

Toninho Cerezo se aproxima de Careca, coloca o braço direito n ombro do jogador do Guarani e olhando para o rosto do companheiro diz:

“É terrível perder um lugar ou ser cortado por contusão. É até desleal… Não há como reagir, não é? Mas acho que você resistiu bem. Vai es recupera, vai jogar muito no Guarani, marcará gols e na próxima Copa terá só 26 ou 25 anos. Será, acho eu, titular absoluto. Não vejo nenhum outro centro-avante e você, mesmo que apareça alguém, estará na frente dele…”

Careca, fica sem graça, os lábios tremem um pouco, baixa os olhos e agradece. Toninho Cerezo, que vai entrar o time do Brasil amanhã, dá um tapa nas costas de Careca, que voltará ao Brasil nas próximas horas.

“Tenho pouco tempo de casado. Ainda estou em lua-de-mel. Já mandei avisar a Maria de Fátima que voltarei agora mesmo. Estou com saudades dela e já estou fora da seleção, pelo menos tenho o direito de ficar perto da minha mulher. Estarei no Brasil torcendo como um maluco para este grupo. Ele não merece voltar derrotado. Tudo aqui é feito com seriedade, com objetivos claros e sinto que o destino é conquistar o título.”

“Depois, é terrível ser torcedor. No último jogo, contra a União Soviética, quase briguei no estádio. Sentei-me num lugar em que as pessoas estavam torcendo para a União Soviética e ainda começaram a me provocar. Quase que parto para uma briga…”

“Este é mais um motivo que fez que eu tomasse a decisão de voltar.”

O destino é engraçado mesmo. No almoço, sem que nada tivesse sido preparado, Toninho Cerezo sentou ao lado de Careca. Passaram a conversar: o que iria voltar e o que entraria no time. Um triste e outro otimista. As reações eram opostas, naturais quando homens se reúnem e trocam seus problemas.

Cerezo, eufórico, dizia:

“Estava esperando muito por este momento, sabe Careca… me preparei durante anos. Quero mostrar até onde posso chegar. Não jogar, ficar de fora, punido, é quase que a mesma coisa que não jogar por estar contundido. Sei que você está muito magoado, mas você vai recuperar tudo… Você tem idade para isso. Se eu não participasse dessa Copa acho que não voltaria na próxima…”

Careca pára de comer e responde:

“Vou contar uma coisa… valeu muito o relacionamento que tive com toda a turma. Só aprendi. Era o mais novo, o mais recruta de todos… Foi uma verdadeira faculdade. Convivi com os melhores jogadores do Brasil. Quanto vale isso? Não há preço que pague…”

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