Marola: “Goleiro é uma opção de vida”

* Publicado na Gazeta Esportiva de 20/01/1981

O jogo do último domingo, no Maracanã, entre Santos e Flamengo não foi dos mais agradáveis, entretanto, o goleiro do Santos, Marola, destacou-se mais uma vez pela segurança, agilidade, postura, liderança e personalidade. Com apenas 19 anos de idade, Marola vai confirmando as previsões: é o melhor dos jovens goleiros do Brasil.

Foi revelado nas equipes juvenis do XV de Novembro de Jaú e rapidamente ganhou projeção nacional, chegando até a Seleção Brasileira de Novos e depois sendo chamado por Telê Santana para integrar a seleção principal do Brasil. O Santos o contratou no final de 1979 e sua presença no time deu a estabilidade que a equipe não teve, desde o momento em que Vitor se contundiu e ficou afastado da equipe por um longo período. Foi o goleiro menos vazado do último campeonato brasileiro e é de uma frieza e uma segurança que chegam a impressionar seus adversários.

Marola custou ao Santos três milhões de cruzeiros, mais os passes de dois outros jogadores. Jeito simples, este goleiro que tem a força de provocar a confiança dos companheiros, parece estar vivendo um lindo sonho:

“Sinto que a fase está boa. As coisas estão acontecendo e os meus esforços, a minha dedicação, estão recebendo o prêmio que todo o profissional espera”.

No Maracanã, Marola mostrou-se seguro e com muita precisão nas saídas, dentro da área. Foi aplaudido pela torcida do Santos e chegou a entusiasmar a torcida flamenguista. Não faz nada além de necessário. Não inventa, não quer aparecer.

Apesar de menino, pode ser visto como um goleiro com experiência. A sua presença na Seleção Brasileira que jogou em Toulon, foi marcante. Marola continua enaltecendo o goleiro Carlos:

“Não faz muito tempo, três anos, eu gostava de ver o Carlos jogando. Acho que assimilei alguma coisa dele. Talvez tenha sido a tranqüilidade. Entendo que com apenas 19 anos fui lembrado pelos principais treinadores do Brasil e só posso estar agradecido. Quero continuar jogando bem e manter a imagem que criou-se em torno do meu nome. Quero dar alegrias ao Santos”.

Em 1982, Marola terá 21 anos e sem dúvida alguma tem chances de ser o goleiro da seleção. Hoje, já é comparado ao goleiro Carlos. Os dois possuem características semelhantes: boa colocação, agilidade e tranqüilidade. Marola não gosta de comparações:

“Quando um jogador é comparado a outro, muitas vezes torna-se ruim para o próprio atleta, pois são dadas qualidades que nem sempre ele as possui”.

Guarani, Botafogo do Rio de Janeiro, Internacional de Porto Alegre e Corinthians, foram os clubes que sonharam em ter Marola. O Santos chegou na frente.

Em pouco tempo, Marola se transformou de uma simples promessa de um pequeno time do Interior, em fato consumado, em garantia no gol do Santos. Quando Vitor resolveu abandonar o Santos, estava certo, pois Marola havia ganho a posição. Cilinho, o técnico que o lançou no time principal do XV de Jaú, não esconde a sua satisfação:

“Eu tinha certeza que daria certo. Em 1978, muitos pensaram que o menino não resistiria a carga, mas ele foi em frente e é um dos melhores do Brasil. Confiei nele…”.

Marola, aproveitou a chance:

“Aquela confiança do Cilinho parece que me fortaleceu ainda mais, eu passei a acreditar no meu futebol, ganhei a posição, me firmei diante da torcida e em um ano seria convocado para a Seleção Brasileira de juvenis que disputou o campeonato sul-americano no Uruguai”.

Além de Carlos, Marola cita outros grandes goleiros:

“Leão, Waldir Peres, João Leite e Jairo, são ótimos goleiros”.

“Sou fã do Fillol. É incrível”.

Marola é um ídolo da torcida do Santos e um chefe de uma uniformizada, esclarece:

“Ele é o verdadeiro espírito do Santos. É jovem, humilde, no gol mostra um futebol alegre e dinâmico. Inspira confiança e a torcida está muito feliz com ele…”.

“Neste jogo contra o Flamengo, ele apareceu em algumas oportunidades de maneira brilhante. Os torcedores cariocas já estavam comemorando o gol, e o nosso goleiro acabou com a alegria deles…”.

Esse é o perfil  do jovem Marola, com cabelos marotos, e falando sempre muito baixo, é um dos lideres do time do Santos. Acredita numa boa campanha da equipe neste campeonato brasileiro e no próximo campeonato paulista:

“O time do Santos está enfrentando as mesmas dificuldades que muitos outros clubes estão enfrentando. Há a natural falta de entendimento dentro do campo. Foram contratados novos jogadores, alguns estão machucados e ocorreram contusões inesperadas. Além disso, o Pita, que é titular da equipe e conhece todo o time, está fora, servindo a Seleção do Brasil”.

“Mudou também o treinador. Cada técnico tem uma filosofia de trabalho e o elenco sente isso. Até todos se adaptarem, até através dos treinamentos, o entrosamento surgir, leva um certo tempo e todos precisam ter paciência”.

“Veja, antes do jogo contra o Flamengo, li jornais do Rio de Janeiro afirmando que o Mengo ganharia com uma pequena diferença de gols, porque o time estava apenas começando a temporada. Mostravam o time do Santos como um perdedor certo. Afinal, os treinamentos que realizamos não foram bons e em cima da hora, o Neto sofreu uma fratura, provocando uma alteração na defesa. Mas o futebol provou que não é uma ciência exata: por muito pouco o Santos não venceu a equipe do Flamengo, dentro do Maracanã”.

Usando bermudas, pernas finas, quem não o conhece, chega a desacreditar da sua condição física. São poucos aqueles que hoje duvidam estar diante do futuro goleiro da Seleção Brasileira. É apenas uma questão de tempo. Não há nenhum goleiro no Brasil, com 19 anos, que possua tantas virtudes, melhorando a cada dia.

“Acho que o segredo de um goleiro é treinar muito, trabalhar sempre, buscando aprimorar os reflexos. Tem que ter paciência e partir para o sacrifício, em muitos momentos”.

“Nunca perdi por dedicar-me inteiramente ao futebol. É uma opção de vida e eu assumi. Sou um moço como todos os outros, mas acima de tudo está o futebol, está o gol, está a responsabilidade profissional. A carreira é curta e não há alternativa para quem quer vencer”.

Marola não deixa de afirmar que ser goleiro é uma opção de vida:

“Não é falta de modéstia, mas não é fácil ser goleiro. Não importa se bom ou ruim. Razoável ou nível de seleção. O esforço é o mesmo. Os treinamentos são intensos e a responsabilidade é enorme. Aquele que parte para a profissão de goleiro tem que ter uma extrema força de vontade, caso contrário fica no meio do caminho…”.

Aqueles que ouvem Marola, sem vê-lo, imaginam um senhor experiente, ou um homem bem vivido. Começou cedo e está colhendo os frutos agora:

“Acreditem no time do Santos. É jovem e com vontade. Mococa, Pita, Zé Carlos, Feijão, Claudinho, e todos os outros jogadores, estão conscientes de que a torcida espera um futebol idêntico ao mostrado há algum tempo. Alegre, eficaz, agressivo, com fôlego, e criativo. Jogadores para isso o Santos tem”.

“Como o Pepe, o Sérgio Clérice também jogou futebol e o diálogo entre o elenco e um técnico ex-jogador, sempre fica mais fácil. Ele sabe dos problemas que ocorrem dentro de campo, sabe das alternativas, sabe como contorna-los e aos poucos as vitórias vão acontecendo. Na minha opinião o Santos estreou bem na Taça de Ouro e daqui para frente vai subir cada vez mais de produção”.

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