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Por trás de Sidão, há um ser humano. A história de Sidney Aparecido Ramos da Silva

Por trás de Sidão, há um ser humano. A história de Sidney Aparecido Ramos da Silva

A sociedade vive tempos complicados. Hoje em dia, todo mundo sabe tudo de tudo, dá opinião sobre qualquer coisa e sempre acha que está certo. E quando digo “a sociedade”, me incluo nesse contexto.

Ontem, após a falha do Sidão, ainda com o jogo entre Santos e Vasco em andamento, meu comentário na Jovem Pan foi:

“Nilson Cesar, alguém falou para o Sidão que ele sabia jogar com os pés, e ele acreditou.”

Um pouco depois, no intervalo da partida, fiz o mesmo comentário nas redes sociais.

A verdade é que de fato acredito que Sidão não jogue bem com os pés. Mas o ponto aqui é outro. O ponto é que, ao contrário do que eu fiz, não é necessário desrespeitar ou desmerecer alguém para defender um ponto de vista. Principalmente quando você tenta se colocar na pele da pessoa em questão.

Uma vez um amigo jornalista me disse: “quando você for falar ou fazer um comentário sobre alguém (jogador, treinador etc), imagine que essa pessoa está na sua frente.” Foi uma dica valiosa, que evitou que eu cometesse inúmeras injustiças.

Mais do que isso, eu não conhecia a fundo a história por trás do Sidão. Todos os meus comentários sempre se limitaram ao que eu via dentro de campo. Mas até que ponto isso é justo? Até que ponto é justo esquecer que há uma pessoa por trás do jogador?

Sidney Aparecido Ramos da Silva, o Sidão, nasceu no dia 24 de dezembro de 1982 em São Paulo. Como tantos brasileiros, sonhava em ser jogador de futebol. Depois de atuar na várzea, começou a carreira no São Paulo em 1999. Pouco depois, tornou-se profissional no Corinthians, onde se deslumbrou, teve episódios de indisciplina e se envolveu com bebidas, drogas e influências ruins.

Mais ou menos nessa época, viu sua mãe adoecer e falecer. Sidão se culpou muito por isso, tanto que teve uma forte depressão e pensou em tirar a própria vida.

Em 2007, abandonou a carreira para trabalhar de segurança. A carreira de jogador não havia engrenado. Por um acaso do destino, foi convidado para jogar futebol pelo dono do Clube Atlético Taboão da Serra. Foi mais ou menos nessa época que Sidão começou a dar a volta por cima.

Casou-se, foi para a igreja, colocou a cabeça no lugar.

Passou por alguns clubes até chegar ao Audax. Em 2016, faria parte da ótima campanha do vice-campeonato Paulista do time comandado por Fernando Diniz. Aos 33 anos, finalmente Sidão tinha conseguido visibilidade e estabilidade como jogador profissional.

Pouco depois do vice-campeonato foi por empréstimo ao Botafogo para ser o terceiro goleiro. Em pouco tempo já era titular. Jefferson, o dono da posição, havia se lesionado.

Após boa passagem pelo Bota, foi para o São Paulo de Rogério Ceni. Alternou bons e maus momentos. Pegou uma época em que a posição de goleiro era muito cobrada. E, mesmo nos momentos ruins tecnicamente, manteve-se na equipe, principalmente pela personalidade. Ele nunca se escondia, nunca deixava de falar, nem nas piores derrotas. Todos valorizavam isso.

Passou pelo Goiás, foi anunciado pelo Vasco e chegou à fatídica partida diante do Santos. Votação do “Craque do Jogo”, Sidão na frente disparado. Engraçado no começo, depois menos e menos, até chegar ao desrespeito. Desrespeito não da jornalista, que não teve culpa alguma, apenas fazia o que tinha sido orientada. O desrespeito na verdade foi de uma sociedade doente.

Logo depois do ocorrido, um post do amigo e competente jornalista Alex Tobias chamou minha atenção. Lembrei que Alex, e principalmente seu irmão, Hudson, cresceram juntos com Sidão, no bairro do Parque Pinheiros, em Taboão da Serra.

Mandei então uma mensagem para ele, perguntando sobre Sidão, ou melhor, sobre o Sidney. Eu queria conhecer a pessoa por trás do jogador, tentar me colocar na pele dele.

Sidão jogou com o Hudson, irmão de Alex, no Clube Atlético Taboão da Serra. Segundo a família, sempre foi um cara gente boa e batalhador.

Na época do Corinthians, quase jogou a carreira no lixo. Vivia por aí com dois amigos e um pandeiro na mão. O pai de Alex, Odair, cansou de encontrar Sidão nas ruas de São Paulo. Odair é amigo do pai de Sidão. Eles costumavam se encontrar para fazer exercícios matinais. Até por isso, Seu Odair criou um carinho grande pelo goleiro. Sempre que podia, aconselhava-o.

Quando Sidão colocou a cabeça do lugar, Odair comemorou. Ficou feliz pela volta por cima.

E, mesmo quando parecia que tudo está bem, a vida pregava peças. Poucos sabem, mas antes de virar pai, Sidão perdeu um filho. Foi mais um momento de grande dificuldade na sua vida.

Apesar de tudo, nunca esqueceu das origens. Ajudou Hudson, irmão de Alex, quando o amigo passava por um momento delicado. E, quando defendia o São Paulo, fez questão de passar o Natal no condomínio onde mora Seu Odair. Fez a festa da molecada.

Quando Sidão recebeu o prêmio de craque do jogo depois de uma atuação ruim, Seu Odair ficou triste. Assim como Alex, Hudson e todos seus amigos de infância. Na verdade, todos que têm um pingo de empatia e compaixão ficaram sentidos.

Sidão não é só Sidão. Sidão é Sidney, pai, filho da orgulhosa dona Vera Lúcia, marido, trabalhador, honesto, que deu a volta por cima quando parecia que tudo estava perdido e que correu atrás de seus objetivos. Sidão não é motivo de chacota.

Como eu disse lá no início do texto, o episódio de ontem me fez refletir. Eu provavelmente já fui desrespeitoso com Sidão e tantos outros. Em uma sociedade cheia de ódio, um pouco de cuidado e respeito não machuca ninguém. Eu posso falar da má atuação do Sidão, claro, mas posso fazer isso sem desrespeitá-lo.

Assim como disse Casagrande e tantos outros, desculpa, Sidão.


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