Pular para o conteúdo

Gratidão profunda, antes tarde do que nunca

Gratidão profunda, antes tarde do que nunca

Passei cerca de 12 anos entrando e saindo de hospitais, dos meus 4 até 16 anos, fazendo cirurgias plásticas reparadoras em função de uma grave queimadura sofrida na face.

 

Numa dessas passagens pelo hospital, fiquei internado 7 meses, numa experiência de enxertos, os quais foram um completo fracasso. Eu tinha 12 anos.

 

Morava em Santos com meus pais adotivos, Rosa e Antônio. Porém, essa internação foi feita no Hospital Brigadeiro Luiz Antônio, em São Paulo, onde morava minha tia adotiva, a Irene.

 

Naquela época, hospitais não se pareciam em nada com os modernos de hoje. As visitas tinham dias e horários. A comida hospitalar não era nada boa. Servida no carrinho da copa, deixava saudade e uma enorme distância da minha casa, pois Rosa era uma espetacular cozinheira.

 

Por isso, minha tia Irene durante 7 meses pegava dois ônibus para ir até o hospital e voltar para casa, porque morava no Alto da Lapa.

 

Todas as terças e quintas-feiras, às 20h, lá estava minha tia Irene com uma sacola na mão, e de dentro dela tirava uma marmita com a sua deliciosa comida; era o meu jantar.

 

Imagine, essa mulher pegava dois ônibus para ir, dois para voltar, e nunca falhou em nenhuma noite nesses 7 meses.

 

O que eu na época achava? Não tinha a menor consciência. Eu achava que era assim, que não passava de algo normal, e que era exatamente isso o dever dela. Eu não tinha nenhum sentimento de agradecimento. Me achava até credor, e o mundo era devedor. Afinal, eu estava no hospital. Logo, nada mais do que a obrigação da minha tia fazer isso.

 

O tempo passou. Eu cresci, estudei e me transformei numa pessoa considerada vitoriosa. Minha tia Irene faleceu em Canela, sua cidade natal, no Rio Grande do Sul.

 

Sempre a quis muito bem, e ia visitar, associando meus trabalhos na Jacto e Agroceres, empresas do agronegócio, onde sempre o estado do Rio Grande do Sul era um roteiro obrigatório.

 

Minha tia Irene faleceu de uma embolia, quando eu já tinha 50 anos de idade. Até então, eu tinha uma consciência do significado daquela mulher? Não.

 

Claro, amava aquela tia adotiva. Mas cheguei a raciocinar sobre esse fato? Não, porquê eu me sentia como muitas pessoas se sentem, credoras do mundo. O mundo deve para mim. E as pessoas fazem por mim, o que óbvio, deveriam fazer. Não há nada de mais no que minha tia fez.

 

Passa o tempo, aprimoramos nossa consciência. Somos surpreendidos por sermos também tratados com indiferença ao fazermos para os outros coisas que nos custa fazer, que nos consome tempo.

 

Precisamos suar para entregar as marmitas (sejam elas quais forem). Um dia parei e vi o quanto trabalhava e me dedicava para dar a pessoas queridas o que eu entendia ser o meu dever fazer.

 

Mas eu não sentia por parte dessas pessoas uma gratidão, um reconhecimento. Era como se fosse meu dever dar e o outro receber. Isso era justo. E ainda, uma sensação de que não entregava tudo pairava no ar.

 

Me sentindo incomodado, parei e refleti. Então, veio a minha mente a imagem da minha tia Irene, todas as terças e quintas à noite, seu prazer em me ver comer, seu abraço, seu beijo.

 

Na hora das visitas irem embora, ela descia, e lá do térreo do hospital acenava a cada 10 metros para a minha janela, até desaparecer na esquina, no ponto do ônibus.

 

Chorei. Explodiu em mim a consciência. Foi tarde. Muito tarde. Eu gostava da minha tia, mas nunca a abracei e a beijei intensamente gritando “te amo tia Irene, suas marmitas de terças e quintas eram muito mais do que uma comida”.

 

Era o exemplo mais puro do amor, da responsabilidade e de jamais abandonar um ser da sua família, ainda que adotivo como eu.

 

Escrevo isto, para que os jovens (e outros não tão jovens assim) tomem consciência, não tão tarde, apesar de ser melhor tarde do que nunca, e agradeçam.

 

Agradeçam as muitas marmitas que recebem de pais, tios, avós, amigos, vizinhos. Elas não são dadas a você porquê você simplesmente merece. Ou porquê você é credor do mundo e os outros seus devedores.

Admita a gratidão o mais cedo possível e não faça como eu, que só fui chorar e agradecer muitos anos depois, e quando a tia Irene já estava no céu, com certeza levando suas marmitas de amor para seus anjos.

 

%d blogueiros gostam disto: