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A morte do Catiça

Ele era sambista e jogador de futebol da periferia. Conhecido pela rapidez e valentia, não fugia do jogo nem da briga. Personagem dos campos de várzea da Zona Leste, circulava facilmente em todas as tribos. Catiça era respeitado do jeito mais puro e simples dos lugares mais distantes de São Paulo.

Convivi com ele. Casado com minha prima, vi o respeito que impunha jogando ou sambando. Nos campos sem grama era sempre um dos primeiros a ser escolhido nas peladas e cansou de erguer taças em festivais. Na Escola de Samba Nenê de Vila Matilde, tinha a ginga e o entendimento para ficar entre os bambas.

Saiu pouco do seu pedaço. Só uma vez foi até o Japão ver o Palmeiras brigar pelo Mundial contra o Manchester United. Vendeu o que podia e comprou uma passagem a “perder de vista”. E foi de lascar. Além de sair com sua bermuda e chinelos de dedos de Sampa e quase morrer no desembarque na neve de Tóquio, o Palmeiras perdeu e o carnê com as prestações da aventura ficaram atormentando por muitos anos.

Nos últimos tempos estava ainda mais recluso. Respirava com dificuldades, a memória falhava e então optou por ver suas paixões apenas pela televisão. Vibrou domingo com o título brasileiro do Palmeiras e já sabia de cor o samba da Nenê de 2019. Ontem a noite a respiração estava muito complicada. E foi um tal de inalação para lá e para cá, desanimando-o sobre uma plena recuperação e a volta aos bons dias.

De repente um mal súbito e o coração parou. Catiça da várzea, do samba, da Penha, da Vila Esperança, Vila Matilde e tantos cantos da periferia estava morto. Os amigos entenderam que ele cansou. O jogo da vida dele tinha chegado ao fim sem sofrimentos e depressões. O samba da Nenê terá uma voz a menos no Anhembi no ano que vem. Os clássicos dos campos pelados não terão mais seus piques. Catiça se foi em silêncio. Mas seu nome ficará eternizado pelas lendas da Zona Leste.