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Faz 51 anos

Era fim da tarde do domingo 17 de dezembro de 1967. Estádio do Pacaembu. Um garoto cabeludo e mal vestido respirava com dificuldades, o coração quase na boca, esperando o final do jogo entre São Paulo e Corinthians. Era decisão. A primeira na vida do garoto de periferia, acostumado a perder tudo no dia a dia. O São Paulo ganhava. 1 a 0. O moleque pobre seria campeão com seu time amado.

Seria. Aí veio a bola cruzada, o toque de Ditão e o gol de Benê. Tragédia. O menino da Penha teve certeza que nada daria certo para ele. Não poderia imaginar que aquele não era o pé de Benê, era a mão de Deus mudando a vida dele e de toda a família. O garoto saiu inconsolável. Durante anos guardou a bandeira de “campeão”, que comprara antes, com a economia de muitos meses.

E voltou para a feira vender bananas, em troca de bananas. Sim o salário era pago em mercadoria e vinha embrulhado em jornal. Bendito jornal A Gazeta Esportiva de 31 de dezembro de 1967. Bendita crônica de Horácio Marana, gênio da escrita e outra interferência de Deus na vida do menino. O “salário” da primeira semana de janeiro veio embrulhado na última página daquela edição. E estava lá a porta da mudança: “Os Gols Malditos de Dezembro”, assinado por Horácio Marana.

Lendo aquilo o moleque viu um mundo desconhecido. A emoção através da escrita, da palavra, do Jornalismo. E passou a acreditar que podia. Anos depois em 1974, lá estava ele entrando na redação do iluminado jornal. E a Gazeta Esportiva abriu as portas e a nova vida para o menino. Depois disso toda uma família foi mudada. A dignidade, o respeito, a consideração inexistentes antes, passaram ao convívio daquela gente, antes tão sem esperanças.

Querido Benê e seu gol “maldito”. Amado Marana e seu texto Divino. Obrigado sempre. Sinto como se estivesse fazendo aniversário. E hoje achei a narração do jogo com o amigo Fiori Giglioti. Quer escutar? :  https://www.youtube.com/watch?v=gCKFwo6Wk0k     Nunca tinha ouvido. Chorei muito. Deus está em cada passo que damos. As vezes não entendemos a lógica. Mas ela existe. Faz 51 anos que “nasceu” Flavio Prado, um simples moleque, que não parecia ter muito futuro lá nos fundões da Zona Leste.