Nesta sexta teremos todos os episódios da segunda temporada de O Mecanismo disponibilizados pela Netflix. José Padilha o grande nome responsável pela série conversou com jornalistas no Rio de Janeiro e falou não só sobre a nova fase da trama, mas também a respeito de sua posição frente aos acontecimentos da política do Brasil.

Lembrem-se que recentemente ele escreveu um artigo para a Folha de São Paulo, no qual apontava que Sergio Moro perdeu a independência política:

“Finge não saber o que é milícia e hoje trabalha para a família Bolsonaro”.

Em nova entrevista para a Folha, Padilha reafirma:

“Agora, eu não sei quem mais é o Moro. Eu vejo duas possibilidades: ele não olhou direito onde estava entrando e, como o Fernando Henrique, é muito vaidoso. Não se deu ao trabalho de olhar o histórico dos Bolsonaros. Os Bolsonaros têm relações com a esgotosfera do crime organizado carioca. Ele é de Curitiba, talvez não saiba. A outra possibilidade é que ele sabia o que estava fazendo e ele fez. Aí o Moro é totalmente diferente de quem eu pensei que ele fosse.”

Em conversa com jornalistas, o cineasta também disse que o agora ministro acabou sendo usado pelo governo.

“O Bolsonaro não tem maioria no congresso e está negociando para aprovar as reformas. E ele está usando o Moro como moeda de troca. Moro saiu de herói nacional para salame fatiado e entregue para o centrão para provar a reforma da previdência. É assim que vejo o futuro da Lava Jato.”

Teve inclusive, na coletiva, uma comparação entre a situação e Moro com a do ex-goleiro Bruno (condenado pelo assassinato de uma mulher):

“Quando o Bruno agarrava os pênaltis, eu não podia criticá-lo pelo homicídio que não aconteceu antes. A mesma coisa vale pro Moro. Eu estou contando (na série) as coisas que ele fez no começo da Lava Jato. Na primeira temporada a gente não cobre o vazamento da conversa do Lula com a Dilma, porque não tinha acontecido ainda, mas colocamos isso na segunda temporada”

Muitos se perguntam se nessa nova fase de O Mecanismo, o personagem inspirado no juiz já aponte para alguma mudança. O juiz Paulo Rigo, em O Mecanismo é inspirado em Sergio Moro. Inspirado, pois é. A série não é documental, é baseado em fatos reais, na operação Lava Jato. Ao que parece, pelo menos nesta temporada, Rigo segue firme, como explicou o cineasta à Folha:

“Estou contando uma história na qual, quando aconteceu, Moro tinha coisas positivas, independente de possíveis mudanças posteriores”

Como aconteceu na primeira temporada, a segunda deve também provocar e incitar críticas. Padilha se diz preparado e enfatizou que o mecanismo não tem ideologia, e é a forma pela qual a política se estruturou no Brasil desde o primeiro governo democrático.

“Sou antipetista, antipeessedebista e antipeemedebista. Mas só me criticam por ser antipetista. Acho que a Dilma sofreu um golpe, mas sempre achei que o PT roubou. E essas coisas são compatíveis, sim”.

Sobre os ataques sofridos pelos atores do elenco por fazerem parte da série, Selton Mello comentou:

“Muita gente que levanta o punho para defender a liberdade de expressão bateu na gente. Que liberdade de expressão é essa? Esse é o nosso trabalho. Eu quero fazer essa série, quero fazer qualquer coisa. Achei um pouco triste e um tanto patético os atores apanharem.”

A abertura desta temporada será nova para o público, mas já era o desejo de Padilha desde o início da série. Não rolou por medo de processo. Agora veremos imagens de políticos como FHC, Lula, Temer e tantos outros ao som de “se gritar pega ladrão, não fica um, meu irmão”,  de Reunião de Bacana, samba de Bezerra da Silva, com um cuidado:

“Eu me dei ao trabalho de separar o refrão de forma que quando diz “se gritar pega ladrão, não fica um, meu irmão” só aparecem imagens de quem foi condenado. No resto da música aparecem os outros.”

Sobre próximas temporadas, Padilha explicou que tudo depende da balança resultado X custo,e contou também que O Mecanismo é uma série muito mais cara do que todas as outras séries da Netflix no Brasil. Os novos episódios centram nos eventos a partir de 2014, na vida real, com a presidente Dilma Rousseff ( ou Janete na série) ainda no poder e 12 dos 13 maiores empreiteiros do Brasil já atrás das grades. Na série, a força-tarefa liderada pela delegada Verena (Caroline Abras), e que conta com a ajuda do ex-policial obstinado Marco Ruffo (Selton Mello) está tentando prender o mais importante dos empreiteiros, Ricardo Brecht (Emílio Orciollo Netto).

Na conversa com a Folha sobre a série, sobrou mais para a família Bolsonaro:

“No final de “Tropa de Elite 2” (2010) tem aquela fala em Brasília… “Quem diria que a milícia iria parar em Brasília?” Fui uma bola de cristal desgraçada, mas eu nunca imaginei que isso fosse acontecer. Mas aconteceu. Na verdade, estava falando de deputados eleitos com votos de milícia. Não estava falando do Jair e do Flávio Bolsonaro, mas aconteceu.”

Ainda sobre Tropa de Elite (2007), Padilha falou sobre o Capitão Nascimento:

“Para mim, é claro que o Nascimento é um cara que tortura, eu mostro ele torturando. Para meu espanto, um número razoável de brasileiros achou aquilo ótimo. Mais ou menos o que o Scorsese disse quando viu seu Taxi Driver no cinema: Caralho, os caras estão aplaudindo o cara!. Me disseram mesmo isso: “Tem muita gente de direita que saiu do armário por causa desse filme e agora a gente está vendo eles”.”

 

 

 

 

 

 

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