O primeiro filme dirigido por Wagner Moura fará sua estreia na seção principal do festival alemão, mas não concorrerá ao Urso de Ouro. O Festival de Berlin acontece entre 7 e 17 de fevereiro.

Marighella é a cinebiografia do guerrilheiro de esquerda que lutou contra a ditadura militar, interpretado por Seu Jorge. O elenco conta ainda com Adriana Esteves, Bruno Gagliasso e Humberto Carrão. A produção da 02 Filmes é baseada na biografia escrita pelo jornalista Mário Magalhães, Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo.  

Wagner Moura falou, em entrevista à Folha de São Paulo, disse que espera que este seja um “filme que traga um exemplo de resistência, sobretudo para jovens negros”, e ainda se disse “preparado para ser odiado pela direita e criticado pela esquerda”. O diretor também falou que se inspirou em José Padilha, de Tropa de Elite, para fazer um “cinema popular, mas potente e com linguagem.” Ao Globo, Moura reconhece:

“Nosso filme chega num evidente momento de disputa de narrativa. Lançá-lo agora vai ser porrada.”

” O filme é atacado o tempo todo em redes sociais. Dizem que eu sou comunista. Hoje há uma luta contra a cultura, as pessoas transformam os artistas em bandidos. Lutar contra a cultura é retirar um mecanismo importante da ferramenta civilizatória. E tem gente dizendo que a História precisa ser reescrita. É inevitável pensar o filme nesse contexto.”

Quem foi Marighella?

O baiano, filho de pai italiano e mãe negra, iniciou sua vida universitária cursando engenharia civil na Escola Politécnica da Bahia. Aos 18 anos, entrou para o Partido Comunista.

Em 1932, foi preso por escrever um poema com críticas ao interventor Juracy Magalhães. Fez carreira na militância política, foi preso e torturado diversas vezes, e como integrante do Partido Comunista Brasileiro, pelo qual chegou a se eleger deputado constituinte (1945), viveu também as sucessivas proscrições do partido. Marighella chegou a ir para a China entre 1953 e 1954, para conhecer a Revolução Chinesa. Em 1964, depois do golpe militar, foi baleado e preso por agentes do DOPS dentro de um cinema, no Rio. Libertado em 1965 por decisão judicial, escreveu  Por que resisti à prisão e A Crise Brasileira, nos quais pregava a luta armada com base na aliança entre operários e camponeses.

Carlos Marighella foi então expulso do PCB por  participar da Organização Latino-Americana de Solidariedade, em Cuba, e logo depois criou o grupo de guerrilha urbana ALN, a Ação Libertadora Nacional.

Em 1969, junto com o Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8), a ALN  sequestrou do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, que foi trocado por quinze presos políticos.

Entre os relatos da sua trajetória, cartas enviadas a Fidel Castro e manual de guerrilha que inspirou os Panteras Negras.

Em 2012, foi homenageado em letra de música, por Caetano Veloso:

Um mulato baiano,
Muito alto e mulato
Filho de um italiano
E de uma preta hauçá
Foi aprendendo a ler
Olhando mundo à volta
E prestando atenção
No que não estava a vista
Assim nasce um comunista
Um mulato baiano
Que morreu em São Paulo
Baleado por homens do poder militar
Nas feições que ganhou em solo americano
A dita guerra fria
Roma, França e Bahia
Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas! Os comunistas!

O filme trata da vida de Marighella entre 1964 e 1969, quando foi morto por policiais em uma emboscada em São Paulo, na Alameda Casa Branca. A operação foi comandada pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, sendo considerada um dos marcos do fim da guerrilha urbana. O Globo trás na sua edição de hoje, uma frase dita pelo protagonista do filme:

“Nós não somos marginais, nós não somos bandidos, nós somos revolucionários que lutam pela liberdade do povo que foi roubada pelo golpe militar”

O diretor falou da expectativa dessa estreia dentro de um festival de cinema tão importante:

“O mais bacana, agora, é estar com o “Marighella” em Berlim. É o festival mais político — avalia ele. — Depois vamos encarar o público brasileiro. O filme ainda não tem data de estreia no Brasil, mas espero que as pessoas o vejam como cinema, não apenas pelo lado político.”

 

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