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No Dia Mundial da Poliomielite, o relato de um sobrevivente de paralisia infantil: “Os pais que não vacinam seus filhos estão cometendo crime”

Dr. Jorge é um sobrevivente de paralisia infantil
Crédito: Jaqueline Falcão

CIDADE DO MÉXICO – Hoje, 24 de outubro, é o Dia Mundial da Poliomielite (paralisia infantil). A  vacinação, que é de graça na rede pública, reduziu, em todo o mundo, os casos da doença em 99%. Mas ainda resta 1% para vencer esta batalha, como pontua Lúcia Briks, diretora médica Latam para Pólio, Meningite, Pertussis e HIB da farmacêutica Sanofi Pasteur.

No passado, a doença matou muitas pessoas. E os que sobreviveram, desenvolveram, a maioria, a chamada síndrome pós pólio (que provoca perdas das funções musculares muitos anos depois da doença estabilizada).

Compartilho aqui com vocês o relato de um sobrevivente de poliomielite. O mexicano Jorge Federico Eufracio Téllez, 69 anos, é médico. Seus pais não vacinaram ele nem seu irmão na infância. Jorge contraiu pólio e sobreviveu. Cresceu, estudou, casou e formou uma família. Até então a poliomielite não tinha imposto privações. Ele trabalhou como ginecologista por muitos anos. Sua alegria era trazer bebês ao mundo. Mas, por uma consequência da doença, a qual ele não imaginava que pudesse aparecer,  precisou mudar de área de medicina – virou médico da família.

” Sou o único vivo da minha geração que teve pólio. Sou o segundo filho de casa e meu pai não deu vacina contra pólio na gente. Mesmo com a doença, eu cresci, era um menino inquieto. Consegui estudar, concluir meu doutorado, casei e tive dois filhos. Minha filha é professora de história e antropologia. Já meu filho é doutor em Sociologia. Eles me tratam como se fosse um bebê precioso, deitado em um berço de algodão. Eu me considero uma pessoa afortunada por isso. O apoio deles e da minha esposa, com que sou casado há 42 anos, é fundamental.

O fato é que um dia, quando tinha 40 anos, comecei a me sentir debilitado. Parecia que os músculos das costas estavam se partindo. Ficava uns 5 minutos em pé e sentia um pouco de melhora. Mas notei que no supermercado, o carrinho de compras que até então eu empurrava, passei a usar como apoio para andar. Passei a usar muletas. Descobri, pesquisando na internet, que era a síndrome pós pólio. E foi nessas buscas que soube que tem baixado o índice de vacinação.

Um dia, estava fazendo um parto e caí (por conta da fraqueza muscular). Eu levantei, troquei as luvas e continuei o parto.  Foi o último que fiz. Ser cirurgião é a coisa mais linda, mas eu não queria que as pacientes tivessem risco. Minhas pernas estavam mais debilitadas mesmo e optei por ser médico de família.  O que eu sinto? Ficou o sentimento de impotência de não fazer a coisa que mais gostava na vida. A pólio tirou estrelas do meu uniforme. Não que ser médico da família seja ruim, mas eu amava a ginecologia.

Os pais que não vacinam estão cometendo crime não só contra os seus filhos, mas também contra os filhos dos outros. São pessoas, eu diria, “criminosas”.  A vacina é fundamental”

 

*viagem ao México a convite da Sanofi Pasteur, que não teve qualquer interferência na produção do conteúdo