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Nova cirurgia poupa a tireoide

Nova cirurgia poupa a tireoide
reprodução Twitter

Amanhã é o Dia Internacional da Tireoide,  glândula que produz hormônios T3 e T4, responsáveis pelo metabolismo no corpo humano. Ela fica na parte anterior do pescoço, abaixo da área conhecida como “pomo de Adão”. As doenças da tireoide podem ser de função, ou seja, quando produz os hormônios em excesso, levando ao hipertireoidismo. Quando a função comprometida leva à produção de menor quantidade, o paciente apresenta o hipotireoidismo.

Mas às vezes surgem nódulos, benignos e malignos. A cirurgia pode ser o tratamento indicado. Em boa parte dos casos,a glândula é retirada totalmente. E o paciente passa a fazer tomar medicamentos para substituir um dos  hormônios que a tireoide produzia.

O que poucas pessoas sabem é que existe uma cirurgia parcial da tireoide. Ou seja, o médico não retira 100% da glândula.

O médico Flavio Hojaij, cirurgião de cabeça e pescoço, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, é um dos especialistas que realizam este procedimento. Ele esclarece os principais pontos.

Dr. Flávio Hojaij

A cirurgia parcial é uma realidade no Brasil e poucas pessoas conhecem. Qual a diferença desta cirurgia em relação à convencional?

Flávio Hojaij – A cirurgia parcial para doença benigna é racional, porém existem controvérsias. Alguns acham que ao indicar a operação da tireoide, sempre deve se retirar tudo . Para mim, isso é um exagero.  A doença benigna unilateral não precisa ser cirurgia total, a menos que seja um hipertiroidismo. A cirurgia  parcial  para câncer, mesmo quando bem indicada, também ainda é controversa.

Minha casuística, entre 2015 e 2019 é de 272 operações para carcinoma de tireoide, sendo destas, 52 parciais.

Quando ela é indicada?

Existem critérios que discutem o tamanho do nódulo.  Pinçando o que há na literatura, a melhor indicação é quando o nódulo tem até 2 cm. Com mais conforto  eu diria até 1 cm, sendo nódulo único, sem agressividade, sem sinais de doença metastática e que o paciente tenha uma boa compreensão e aceite uma reoperação, se necessário.

Quais as vantagens para o paciente?

Índices de complicação menor, ter sobrevida igual a quem se submete a tiroidectomia  total e ainda  manter a produção de hormônio natural.O hormônio próprio melhora muito a qualidade de vida.

Nesse aspecto é que eu diria que uma pessoa que apesar de ter um câncer na tireoide se enquadre em vários critérios – é jovem, tem nódulo único e pequeno, sem sinais de doença à distância, entre outros – pode ser submetida a uma cirurgia parcial e, dessa forma, terá uma melhor qualidade de vida em comparação a quem fez a cirurgia total. A parcial é, sem dúvida, um agregador de qualidade de vida, ainda que seja para tratar um carcinoma de tireoide. Os especialistas devem verificar a possibilidade de realizar uma cirurgia parcial de tireoide em alguns pacientes, visando proporcionar uma melhor qualidade de vida, sem perder o foco no tratamento e resultado de se livrar do tumor.

O tempo de recuperação é menor? Quantos dias o paciente leva para retorno às atividades como trabalho?

Com menor chance de complicação, o restabelecimento do paciente é mais rápido . Dependendo da atividade do paciente ele pode voltar a vida normal em 7 dias.

A cicatriz é menor?

Não, tamanho análogo  a outra. De 3.5 a 4 cm.

O que ocorre após a cirurgia?

Após uma cirurgia de retirada total da tireoide, o paciente deverá tomar por toda a vida a levotiroxina, hormônio importante e que é produzido pela tireoide. Mas outro hormônio, o triiodotironina (o T3), também produzido pela glândula, não costuma ser reposto, já que sua manipulação, em microgramas, é muito difícil. Por isso, cerca de 10% das pessoas passam a ter a sensação de que estão mais lentas, mais cansadas, com o raciocínio mais fraco e algumas outras alterações. E isso ocorre, entre outras causas, por falta de T3 nos tecidos periféricos. Mas como o T3 não é disponível comercialmente, precisa ser manipulado e em doses de microgramas, já que em excesso causa taquicardia. Dessa forma, a maioria dos médicos não indica essa reposição. E a maioria das pessoas se adaptam sem esse hormônio.