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A nova era, o papel do jornalismo e o choque de decretos

A nova era, o papel do jornalismo e o choque de decretos
Marcelo Chello/EFE

Escrevo enquanto assisto à posse do presidente Jair Bolsonaro. É bonita a festa. Torço para que seu governo dê certo. Michel Temer – ainda a ser reconhecido – foi bom presidente; muito bom. Agora, passa a faixa. Entrega um país bem melhor do que pegou. Gosto do que esta celebração representa. Objetivamente: que o Brasil tem vigor. Com muitos problemas, mas com vitalidade.

Gosto de ver as pessoas na rua, em Brasília, em comemoração ao que talvez ignorem ou mesmo menosprezem: a alternância de poder, a saúde de uma democracia funcional, ainda que precária.

Há também, contida neste evento, a esperança de que o país enfim vire a derradeira página deste longo capítulo de crise, política e econômica, em que se afundou. Desde 2013. Vamos para seis anos de vala. Não há quem aguente mais. E estão dadas as condições cíclicas para que assim seja. Errando pouco, sai-se do buraco. Vencida a recessão, Bolsonaro tem a chance histórica de comandar o processo de retomada do crescimento econômico. Que assim seja.

Nunca será redundante – não no tempo em que vivemos – dizer que o crítico, por severo que seja, também vive no Brasil, tem família aqui e precisa de prosperidade e segurança. Precisa de que esta bagaça avance. O velho “estamos todos no mesmo barco.” Tá ok? Torcer para que funcione, entretanto, não significa ser torcedor. Nada contra quem milita, inclusive fantasiado de jornalismo. Mas torcer para que dê certo contempla igualmente – precisa contemplar – as posições ceticista e pessimista. A não ser que tenhamos criminalizado o contraditório de vez.

Sou desconfiado. Aprecio a prudência. Acho bom quando me chamam de chato. A história do Brasil me deixa ressabiado. A posição que me cabe – aquela de onde melhor posso contribuir ao debate público – é a de duvidar e questionar. Sei que existem jornalistas que operam no registro fácil: falando e escrevendo aquilo que as pessoas querem ouvir e ler; jogando pra galera. Tudo bem. Há espaço para os oportunistas da opinião. Nenhuma novidade. Quem não se lembra dos tempos lulopetistas e dos blogues sujos? Um pouco de otimismo, então? Se sempre há quem queira consumir assessoria de imprensa, que deste limão se faça uma limonada; talvez eles – os jornalistas oficiais, em seus novos formatos, servindo à nova corte – ofereçam algo à balança republicana: o contrapeso (logo, o equilíbrio) para a existência do jornalismo livre.

De todo modo, não serão dias fáceis para o jornalismo profissional e independente. O valor da mediação foi jogado – com método – no lixo. A popularidade alta ilude; deslumbra. Que o governante pense que, aprovadíssimo, pode falar diretamente ao cidadão, sem filtros ou por meio dos filtros de porta-vozes subservientes, tudo bem. É da natureza do poderoso com vocação autoritária. (Quase todos.) O problema é o cidadão crer que seja – que possa ser – plenamente informado, sem viés, pelo canal de comunicação do (a serviço do) governante. Seria como imaginar Flávio Bolsonaro dando ciência pública do que se investiga a respeito de Fabrício Queiroz. Não rola, né?

Como muitos milhões de brasileiros acreditam piamente na verdade (de flerte com o divino) endereçada pela palavra de Bolsonaro, o ofício jornalístico torna-se prescindível, descartável, associado sempre a intenções conspirativas e entendido como algo que se mobiliza para desinformar. Trata-se de realidade – de percepção do público – com a qual o jornalista precisa se habituar. Não no sentido de se conformar; mas de maneira a não cair em armadilhas.

Jair Bolsonaro e o bolsonarismo têm formas eficientes de desqualificar/emparedar a imprensa. Já muito escrevi e falei a respeito. Uma das mais frequentes, por exemplo, desdobra-se assim: os seus plantam uma informação e a deixam circular, para testar reações, e então soltam o desmentido; não raro via o próprio presidente. Não é prática original. Mas tem funcionado, minando a posição de quem noticia. Foi assim na campanha e no período de transição. Será assim no curso do governo.

A tradicional marca do furo jornalístico, da apuração que chega na frente para noticiar, perdeu força. Artificialmente – diga-se. A guerra cultural é parte constitutiva fundamental do novo esquema de poder. Por culpa também do jornalismo, que muitas vezes tratou Bolsonaro como inimigo, o jornalismo virou adversário. Será desqualificado sempre que possível; desmentido artificialmente como regra. O furo de agora será FakeNews cinco minutos depois. Nada a ver com verdade. Mas com versão; com a imposição de versão. Há uma rede armada para negar e distorcer o fruto da apuração jornalística. Não adianta insistir. É hora de refletir sobre o ofício e retomar a capacidade de investigar profundamente, algo de que o jornalismo se perdeu nos últimos anos, sobretudo em função da vida fácil decorrente de se alimentar de vazamentos seletivos ministrados por autoridades. Há muito a se investigar. E, se há, haverá jornalismo a ser feito.

Convém ter clareza: a mui influente hostilidade à imprensa não aderente tem origem em Bolsonaro e filhos. É fato. Lamentável, mas fato. Faz parte do modus operandi do novo regime. Quero estar errado sobre um traço componente da liderança do presidente: a necessidade permanente de cultivar inimigos imaginários – o jornalismo entre eles – para sustentar a tropa unida e alerta.

A tropa, aliás, é grande e valente. Foi preparada para o combate. E tem cabeças facilmente identificáveis. Para além dos filhos. Algumas são brilhantes. Estão aí – basta observar – os novos poderosos; os que se assenhoraram de oportunidades até faz pouco inimagináveis. É do jogo. De resto, a união entre intelectuais e poder não é novidade. Nem algo essencialmente nocivo.

Um governo que se impõe discursivamente como o de Bolsonaro é um que troca tudo, ou quase tudo. A máquina federal existe. Os cargos, ainda que reduzidos, idem. Troca pressupõe novos ocupantes. Não poucos, porque não poucas são as cadeiras. A questão é se com isso teremos também os novos ricos. A história – de novo ela – nos educa. Já está aí a nova corte. As oportunidades existem. Não custa lembrar, independentemente da estrutura de governo, que o PSL é – será cada vez mais – um partido riquíssimo. As tentações existem.

Fala-se em “nova era”. Ainda que surgida como galhofa, a expressão é projeção marqueteira legítima. Não a condeno. Não é falsa. Para muita gente, será mesmo. Em termos de esperança, todo o novo governo – cada um a seu modo – vende-se como sujeito de uma “nova era”. Não terá sido igual com o lulopetismo em 2003? E, ainda antes, com Collor?

No caso do governo Bolsonaro, concebido, desde a campanha eleitoral, sob a ideia de revolução, apregoar-se como expressão de uma ruptura é obviedade, e obrigação. É preciso alimentar a mitologia. Manter ativa a militância, inclusive a porção jacobinista – a que pede cabeças e fareja sangue (gancho para insurreição) até em revolta de caminhoneiros. Reforçar na rapaziada a convicção de que aquilo que um Queiroz sugere não passa de exceção; para os fanáticos, de conspiração contra a ordem que ascende. Mais: é preciso se precaver para quando a popularidade baixar; porque sempre baixa. É quando se costuma lastimar a falta de mediação… A ver.

Se eu acreditasse em algo como “nova era”, advertiria seus condutores para os riscos do mundo real. Por exemplo: o ativismo judicial – a maior ameaça atual à administração pública – que tem travado o país. Veja o que ora se move contra Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, e reflita, leitor, sobre se Bolsonaro não tende a ser submetido ao mesmo que Temer. Hein?

Inútil, agora, escrever que mudança – renovação – não é valor em si; e que se pode mudar, romper, para pior. O tempo dirá. Longo prazo, contudo, nada tem a ver com a retórica bolsonarista, costurada para efeitos imediatos. É aqui; é agora.

Bolsonaro é coerente; sua inteligência não pode ser minimizada. É um animal político com rara capacidade intuitiva. Sabe que tem de dar respostas rápidas e, uma vez empossado, mandar mensagens objetivas a seus apoiadores. Para isso, tem a caneta. Não lhe falta tinta. Não lhe faltará punho. Reveja, leitor, o discurso que fez no Congresso. Ele assumiu muitos compromissos, os mais variados, na jornada até ser eleito. Vai honrá-los, ainda que com alcance prático restrito e provisório, com muita canetada. Para o crítico, com voluntarismo demais e política de menos; com projeto de menos também.

É possível esperar, nos primeiros dias da gestão que ora se inicia, uma chuva de decretos. Há o aspecto simbólico dos atos. O choque de medidas unilaterais consistentes com o rigor da mudança comprada pelo eleitor. O pacote de determinações que mostra a que se veio. Alguém dirá: não é um projeto isto? Uma forma de governar? Ele faz a sua parte – eis o que informa a cada canetada. Toma a iniciativa. Bota na frente. Usa um instrumento legal para cumprir a palavra empenhada. Não terá culpa sobre se os outros não o acompanharem. Assim, cria o ambiente de pressão sobre os demais Poderes. Em curto prazo, pode resultar. Para além disso, será contraproducente. Que se olhe a história – sempre ela. Que se avalie, por exemplo, a capacidade de o Supremo travar o ímpeto decretador de um presidente.

Bolsonaro é comunicador nato. No sábado, anunciou, via Twitter, um decreto relativo à posse de armas. As limitações do ato são evidentes. Não importa. Tampouco importa que o Judiciário o possa desarmar. Sendo perfeitamente simbólico dos fundamentos bolsonaristas, o decreto alcança seu objetivo. Dá satisfação – presta contas – ao eleitor. Imediatamente. Pronto.

Diga-se que não há problema em um presidente assinar decretos. Trata-se de ferramenta do Executivo e tem caráter complementar, de detalhamento das leis. É recurso limitado, mas seu uso é prerrogativa do presidente. Ponto final. O problema é o excesso. Mais exatamente: o que alicerça – pode alicerçar – o uso excessivo. Convencer-se de uma onipotência que não tem base. Lançar-se a um volume de aplicação que derive da ideia – tão confortável quanto falsa – de que se pode governar via decreto. Ou seja: sem o Parlamento, ou minimizado a chancela do Parlamento. Em curto prazo, sob alta popularidade, até se atinge – se pode atingir – o efeito desejado. Fazer disso meio de governar, no entanto, é tiro no pé já dado outras vezes, com produtos sempre perigosos. Para o próprio governo. Essa advertência é válida.

Governos, digamos, com muita vontade tendem a buscar caminhos menos dependentes de trâmites institucionais para aplicar suas ideias. Não existe, porém, atalho para mudanças se tais se pretenderem duradouras.

Acreditar nisto – em governar via decreto – significa negligenciar a política e não dar a devida atenção ao diálogo político com o Congresso, sem o qual as reformas estruturais necessárias se tornam difíceis. Um erro em que o Brasil não pode incorrer novamente.

Que Bolsonaro faça seu jogo de partida, dê seu recado à militância, atenda provisoriamente, na largada, às demandas de sua base, e então governe em parceria com o Congresso. A única forma de não se armar voo de galinha.

Não quero ser desagradável para além da conta, mas o governo começa – já começou – sem a mais mínima ideia de como formar maioria parlamentar. E isso não se arranja por decreto.