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Batalha de percepções: as apostas a partir do 15 de maio

Flavio Contente/Estadão Conteúdo
Batalha de percepções: as apostas a partir do 15 de maio

As manifestações de ontem, 15 de maio, foram gigantescas. É inconteste. Um fato, como se diz. Agora, terá vez – já está em campo – a batalha de versões, a guerrilha por ditar a percepção dominante a respeito dos protestos. A briga é boa, dura, certamente suja, e o governo parte em desvantagem, atentamente observado pelo poder moderador em que vai se constituindo o Congresso Federal.

Destaque-se, a propósito de luta, que a impressionante musculatura das manifestações derivou de uma contundente derrota anterior do bolsonarismo, batido – mesmo tendo razão tecnicamente – na peleja narrativa sobre se a intervenção do MEC nas universidades seria corte ou contingenciamento. A percepção de que se trata de corte – de afronta autoritária ao ensino público como projeto de poder – difundiu-se e prosperou.

É ocorrência extraordinária; porque desde há muito o bolsonarismo não era vencido na cancha da imposição discursiva. Disto, desta falha de convencimento, desdobra-se outro fato, que se soma ao tamanho monumental das manifestações: não eram só militantes de esquerda – não somente sindicalistas e agentes partidários – os que tomaram as ruas do país. Havia ali inclusive eleitores de Jair Bolsonaro, muitos mesmo, e gente crítica ao que os governos lulopetistas fizeram com a Educação, particularmente com as universidades; gente que ora tampouco gosta da forma como o governo conduz – não conduz – as políticas públicas para o setor.

Ao bolsonarismo, porém, a complexidade desse segundo fato – porque manipulável – não importa. Que se o distorça e simplifique. Se é impossível negar o volume dos protestos, difícil não será – esta é a aposta bolsonarista – transformá-los em expressão da extrema-esquerda, que, derrotada nas urnas, operaria para paralisar a capacidade produtiva de um país já engessado, caracterização estigmatizante por meio da qual explorar o aguçamento da polarização necessária ao clima de conflagração permanente de que o bolsonarismo precisa para desdobrar sua óbvia agenda plebiscitária; aquela que, esmagando poderes intermediários independentes como o Congresso, “casa de bandidos”, estreitaria a comunicação direta entre governante e povo.

Este – longe de ser novidade – é o fetiche (e o objetivo) do bolsonarismo: estabelecer canal, imediato e sem desvios, com o povo, reengajando este ao fenômeno político que elegeu Bolsonaro. Sim, democracia direta.

Cito o que escrevi na véspera, na minha coluna em O Globo, sobre a dinâmica conflituosa que anima o bolsonarismo – e particularmente sobre a guerra cultural bolsonarista encontrar terreno de expansão fértil no corpo da Educação:

Nenhum bolsonarista — tanto mais um antigo professor universitário — bloqueia dinheiros de universidades, no tranco, sem saber exatamente onde e por que mexe; para que mexe. Sim, é o que quero dizer: a ação espera — quer, deseja — o contragolpe; se violento, tanto melhor. Seria o cenário dos sonhos bolsonaristas, a mais límpida maneira de sustentar o terceiro turno em que encontra seu ar: provocar a reação do que seja facilmente designado como extrema-esquerda, de preferência com greves, com protestos destrutivos nas ruas, tudo quanto possa projetar polarização e ser caracterizado como movimento paralisador de um país já paralisado, e que sublinhe os que se manifestam como aqueles que, agindo em defesa de interesses pessoais e mesquinhos, jogariam contra o país, a turma que não quer ver o Brasil dar certo — o paraíso caótico, o estado de conflagração, por meio do qual o bolsonarismo, em campanha constante, melhor consegue falar, sem intermediários, à população.

O bolsonarismo também depende do “nós contra eles”. Foi sob essa dependência que o presidente da República dobrou a aposta ao se referir aos manifestantes como “militantes”, “imbecis” e “idiotas úteis”. Não terá sido à toa. A ideia, fundamento bolsonarista, é atiçar o racha da sociedade, manejar traumas recentes de uma parte significativa da população que associa esquerda e “balbúrdia” – associação sem a qual, sejamos claros, não haveria Bolsonaro.

O bolsonarismo bota as fichas, não sem risco, na mobilização convocada para o dia 26, a ser apregoada – falo aqui de convencimento e percepção, por favor – como reação verde e amarela à bagunça irresponsável vermelha; daí por que já se veja hoje, nas redes bolsonaristas, um esforço por captar e divulgar quaisquer excessos, quaisquer peitinhos de fora, que se tenham exibido ontem.

Tem método na coisa; de modo que não tenhamos dúvida: o bolsonarismo se dedicará a cultivar a memória dos cidadãos para manifestações públicas esquerdistas do passado, aquelas truculentas, com mortes e com black blocs depredando patrimônio público – isto em busca de ativar a ojeriza da população pela desordem, um dos sentimentos decisivos para a constituição da persona de Jair Bolsonaro e, pois, para sua vitória eleitoral em 2018.

Muita atenção ao dia 26, inclusive da parte do Parlamento. Se a estratégia de hiperpolarização do bolsonarismo resultar bem e a manifestação funcionar como nova espécie de reação ao #EleNão, o governo – empoderado por lastro popular – lançar-se-á a mais uma rodada de ataques e intimidações ao Congresso, o “sindicato do crime”, força intermediária autônoma a ser esmagada. Se fracassar…