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Destrinchando a cartinha divulgada por Bolsonaro

Destrinchando a cartinha divulgada por Bolsonaro

Jair Bolsonaro divulgou um texto infame e golpista que descreve um país de gestão impossível se o governo não se render às chantagens das corporações. A matéria do Estadão dá ótima conta do enredo. De minha parte, comentarei a coisa trecho a trecho – ressalvando que o escrito só tem importância porque difundido pelo presidente da República, e que não vejo no movimento algo que não uma tentativa de ordem unida para a mobilização da militância bolsonarista, especialmente com vistas à manifestação convocada para o dia 26.

Vamos lá…

Temos muito para agradecer a Bolsonaro.

Temos? Quero saber por quê. O escritor bolsonarista dirá a seguir.

Bastaram 5 meses de um governo atípico, “sem jeito” com o congresso e de comunicação amadora para nos mostrar que o Brasil nunca foi, e talvez nunca será, governado de acordo com o interesse dos eleitores. Sejam eles de esquerda ou de direita.

Veja, o leitor, o conjunto de motivos por que devemos – temos de! – ser gratos a Bolsonaro. Traduzo: “cinco meses de um governo atípico” é eufemismo para disfuncional, travado, sem projeto, que se lançou à guerra cultural como motor do Estado e que se orienta sob a palavra de teóricos da conspiração; “sem jeito com o Congresso” significa hostil à atividade política e disposto ao choque institucional com um Poder da República, o Parlamento, fundamento da democracia representativa, que trata como espécie de sindicato do crime; “comunicação amadora” é aquilo até ontem tratado como razão maior para o sucesso eleitoral do atual presidente e, portanto, uma escolha conscientemente feita pelo bolsonarismo sobre como, uma vez no Planalto, falar à população, aquilo graças ao que se manteria o povo mobilizado e conectado ao governante em sua cruzada contra o establishment.

De modo que, segundo entendo, devemos ser gratos a Bolsonaro por, em cinco meses de absoluta inação, nos haver demonstrado que este país nunca será mesmo governado de acordo com o interesse dos eleitores – sejam eles de esquerda ou de direita. Acrescentaria aqui também os eleitores de centro, não à toa esquecidos pela mente, a cabeça autora do texto, tão anônima quanto binária. Incluo ainda, claro, os eleitores de baixo e de cima.

Desde a tal compra de votos para a reeleição, os conchavos para a privatização, o mensalão, o petrolão e o tal “presidencialismo de coalizão”, o Brasil é governado exclusivamente para atender aos interesses de corporações com acesso privilegiado ao orçamento público.

Sou fascinado pela concepção bolsonarista – de extração seletiva – para o que sejam corporações. Veja-se a seguir.

Não só políticos, mas servidores-sindicalistas, sindicalistas de toga e grupos empresariais bem posicionados nas teias de poder. Os verdadeiros donos do orçamento. As lagostas do STF e os espumantes com quatro prêmios internacionais são só a face gourmet do nosso absolutismo orçamentário.

Os procuradores e juízes, por exemplo, da Lava-Jato – avessos, por exemplo, à reforma da Previdência – estarão incluídos nesses grupos influentes “bem posicionados nas teias de poder”? Ou não serão também, ciosos de seus auxílios-moradia, “verdadeiros donos do orçamento” e guardiões do “absolutismo orçamentário”?

Em termos de “servidor-sindicalista”, o que difere um Marcelo Bretas de um Ricardo Lewandowski? Hein?

Todos nós sabíamos disso, mas queríamos acreditar que era só um efeito de determinado governo corrupto ou cooptado. Na próxima eleição, tudo poderia mudar. Infelizmente não era isso, não era pontual. Bolsonaro provou que o Brasil, fora desses conchavos, é ingovernável.

Não é maravilhoso? O bolsonarismo criou a virtude caótica e de expressão imediata. Em cinco meses, Bolsonaro provou que o Brasil é ingovernável – com ou sem conchavos. Pronto. Está provado. Ok. E agora? Faltam três anos e sete meses. Qual a ideia? O que mais se deverá provar, meu Deus? Devo agradecer a Bolsonaro por endossar um texto celerado – que poderia ser obra de um Jânio Quadros inculto – que expressa indulgência para com o presidente e flerta com a possibilidade de desembarcar? Ou seria um golpe a alternativa? Hum… Devo agradecer tendo também pena de Bolsonaro, indivíduo obrigado a presidir o Brasil, o pobre?

Descobrimos que não existe nenhum compromisso de campanha que pode ser cumprido sem que as corporações deem suas bênçãos. Sempre a contragosto. Nem uma simples redução do número de ministérios pode ser feita. Corremos o risco de uma MP caducar e o Brasil ser OBRIGADO a ter 29 ministérios e voltar para a estrutura do Temer.

A mente bolsonarista opera assim – não é segredo: porque houve compromissos de campanha, o Parlamento (como se não fosse um Poder da República composto por gente igualmente eleita) deve se curvar à agenda de um governo que o trata como bandido.

Isso é do interesse de quem? Qual é o propósito de o congresso ter que aprovar a estrutura do executivo, que é exclusivamente do interesse operacional deste último, além de ser promessa de campanha?

Pergunta genial porque sincera – obra-prima do autoritarismo bolsonarista: “qual é o propósito de o Congresso ter que aprovar a estrutura do Executivo, que é exclusivamente do interesse operacional desde último, além de ser promessa de campanha?” Suponho que a questão relativa à promessa de campanha já possa ser afastada. Né? Obrigado.

Respondamos, então – objetivamente: o propósito, autocrata bolsonarista (perdão pela redundância), é o republicano, aquele que controla, equilibra e distribui prerrogativas e poderes. A estrutura do Executivo, de seu exclusivo interesse operacional, é – exatamente por isso – estabelecida via legislação; e não à toa o governo editou uma medida provisória a respeito: para que, sim, entrasse em vigor imediatamente, com força de lei, mas com posterior exame do Legislativo.

Se, por acaso e por exemplo, a MP em questão não for aprovada, o governo deverá mandar um projeto de lei para a Câmara.

Ninguém disse que era fácil a democracia.

Querem, na verdade, é manter nichos de controle sobre o orçamento para indicar os ministros que vão permitir sangrar estes recursos para objetivos não republicanos. Historinha com mais de 500 anos por aqui.

Isto é uma falácia. O aparelhamento e o domínio sobre orçamento independem de a estrutura do Executivo ter de ser chancelada pelo Legislativo – um governo com vinte ou duzentos ministérios teria de ser submetido ao mesmo processo. O de Jair Bolsonaro tem, hoje, 22; e nós vemos, diária e publicamente, disputa por poder, pelo poder sobre os orçamentos, nas pastas da Educação e das Relações Exteriores, e na Secretária de Governo, notadamente em função das verbas de comunicação institucional. Historinha com mais de 500 anos e ainda sendo contada na gestão de Bolsonaro.

Que poder, de fato, tem o presidente do Brasil? Até o momento, como todas as suas ações foram ou serão questionadas no Congresso e na Justiça, apostaria que o presidente não serve para NADA, exceto para organizar o governo no interesse das corporações. Fora isso, não governa.

É passagem dramática, tanto mais porque num texto difundido pelo próprio presidente, o que lhe dá tom confessional. Pretendo aqui, porém, trazer esperança a Bolsonaro. O senhor tem muito poder, desde que se comporte como chefe do Executivo, o que significará ter de se articular – sim, politicamente – com as demais instituições republicanas. A se comportar como imperador, que é o lugar em que o vê o autocrata autor do lamento, servirá mesmo para nada, nem para “organizar o governo no interesse das corporações” – elas farão o serviço sozinhas e sem resistência.

Se não negocia com o congresso, é amador e não sabe fazer política. Se negocia, sucumbiu à velha política.

Essa armadilha foi criada pelo bolsonarismo – e quem a cita, não sendo bolsonarista, apenas exerce a memória; lembra, entre outras coisas, que o governo, ele próprio, pôs-se na condição de refém da retórica eleitoral que criminalizou a política.

 O que resta, se 100% dos caminhos estão errados na visão dos “ana(lfabe)listas políticos”?

Não! Se negocia, se faz política, está certo – porque governará. Quem inventou a dinâmica conflituosa entre “velha política” e “nova política” foi o bolsonarismo, e é com as milícias digitais – analfabetos políticos – que Bolsonaro precisará se acertar se quiser prosperar como presidente. Essa briga aí e de vocês.

A continuar tudo como está, as corporações vão comandar o governo Bolsonaro na marra e aprovar o mínimo para que o Brasil não quebre, apenas para continuarem mantendo seus privilégios.

Isto é verdade. Paulinho da Força já deu a letra. O governo, porém, não é vítima desse processo. É o principal agente. A inação também faz mover, de modo que já está em campo uma espécie de Parlamentarismo informal ao qual não tardarão a aderia muitos dos hoje apoiadores de Bolsonaro – inclusive o mercado financeiro. Escrevi a respeito aqui.

O moribundo-Brasil será mantido vivo por aparelhos para que os privilegiados continuem mamando. É fato inegável. Está assim há 519 anos, morto, mas procriando. Foi assim, provavelmente continuará assim.

Antes de Bolsonaro vivíamos em um cativeiro, sequestrados pelas corporações, mas tínhamos a falsa impressão de que nossos representantes eleitos tinham efetivo poder de apresentar suas agendas. Era falso, FHC foi reeleito prometendo segurar o dólar e soltou-o 2 meses depois, Lula foi eleito criticando a política de FHC e nomeou um presidente do Bank Boston, fez reforma da previdência e aumentou os juros, Dilma foi eleita criticando o neoliberalismo e indicou Joaquim Levy. Tudo para manter o cadáver procriando por múltiplos de 4 anos.

Agora, como a agenda de Bolsonaro não é do interesse de praticamente NENHUMA corporação (pelo jeito nem dos militares), o sequestro fica mais evidente e o cárcere começa a se mostrar sufocante.

Não vim para fazer crítica literária de tragédia ruim. Nem para comentar uma visão histórica precária, cujo único fundamento – único norte – é a aversão à atividade política. Só uma passagem nesse trecho merece de nota, justamente aquela entre parêntesis e apenas porque parte de um texto compartilhado pelo presidente, que corrobora assim a tese de que os nem os militares se interessariam pela agenda de Bolsonaro, talvez mesmo sócios no sequestro. Deprimente.

Na hipótese mais provável, o governo será desidratado até morrer de inanição, com vitória para as corporações. Que sempre venceram.

Do jeito que a coisa vai, não são poucos – entre os bons – os que já acham esse um bom caminho. Melhor não dar ideia. Os maus podem chegar junto.

Daremos adeus Moro, Mansueto e Guedes. Estão atrapalhando as corporações, não terão lugar por muito tempo.

Nada. Não se engane, autocrata. Essa turma fica, sobretudo os da economia. Desde que tenham condições de avançar o programa liberal, eles ficam. E aqui preciso registrar que o governo Bolsonaro, ao menos nesses cinco meses, ainda não lhes ofereceu essas condições. Sugiro autocrítica. Para que os heróis possam atrapalhar as corporações, o governo do mito precisa parar de atrapalhá-los.

Na pior hipótese ficamos ingovernáveis e os agentes econômicos, internos e externos, desistem do Brasil. Teremos um orçamento destruído, aumentando o desemprego, a inflação e com calotes generalizados. Perfeitamente plausível. Claramente possível.

Descreve-se o lugar em que estamos. Hoje. Não é projeção de futuro. A pior hipótese é o governo Bolsonaro conforme não anda. Os agentes econômicos, neste momento, estão olhando para os lados, prontos para pular fora e já contemplando a viabilidade de um arranjo, aquele parlamentarista informal, que una o que já chamei de “governo Guedes” e o primeiro-ministro Rodrigo Maia. Perfeitamente plausível. Claramente possível.

A hipótese nuclear é uma ruptura institucional irreversível, com desfecho imprevisível. É o Brasil sendo zerado, sem direito para ninguém e sem dinheiro para nada. Não se sabe como será reconstruído. Não é impossível, basta olhar para a Argentina e para a Venezuela. A economia destes países não é funcional. Podemos chegar lá, está longe de ser impossível.

Esta é a descrição, por um bolsonarista, do projeto de poder do bolsonarismo, a consequência inescapável da revolução reacionária, com vocação para a ruptura e têmpera para a imprevisibilidade, movida ao cultivo permanente de confrontos artificias e à forja de crises institucionais. Podemos, sim, chegar lá. Esse texto é um óbvio apontamento para a opção golpista.

Agradeçamos a Bolsonaro, pois em menos de 5 meses provou de forma inequívoca que o Brasil só é governável se atender o interesse das corporações. Nunca será governável para atender ao interesse dos eleitores. Quaisquer eleitores. Tenho certeza que esquerdistas não votaram em Dilma para Joaquim Levy ser indicado ministro. Foi o que aconteceu, pois precisavam manter o cadáver Brasil procriando. Sem controle do orçamento, as corporações morrem.

A literatura ruim frequentemente se avizinha do desfecho reproduzindo, em busca de uma jogadinha narrativa, a forma – ruim – como começou. Aí está. “O cadáver Brasil procriando”. Como não concordar ao ler um conjunto de estupidezes como esse, a própria calamidade da educação entre nós? O que mais dizer?

Eu não agradecerei a Bolsonaro por se mostrar um incompetente autoritário hostil à democracia liberal em menos de cinco meses. Isso é uma desgraça. De minha parte, fico perplexo em haver o presidente da República divulgado – chancelado – um texto indigente como este.

O Brasil está disfuncional. Como nunca antes. Bolsonaro não é culpado pela disfuncionalidade, pois não destruiu nada, aliás, até agora não fez nada de fato, não aprovou nada, só tentou e fracassou. Ele é só um óculos com grau certo, para vermos que o rei sempre esteve nu, e é horroroso.

O Brasil está disfuncional. Como nunca antes. No governo Bolsonaro, como nunca antes: disfuncional. Bolsonaro é, sim, culpado por essa disfuncionalidade, conforme grita a inatividade de sua gestão, mas é também a expressão máxima dessa disfuncionalidade – o mais alto berro da crise institucional em que o país afunda desde 2012 e sinal de que a conflagração vai ainda longe do fim. Aliás, é o que nos informa o autocrata autor do texto, provavelmente alguém do mercado financeiro, na última linha do suplício.

 Infelizmente o diagnóstico racional é claro: “Sell”.

Está comprado de governo, estocado de bolsonarismo? Venda.