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Manifestação do dia 26 é ato pró-bolsonarismo, contra o Parlamento e contra a reforma da Previdência

Agência Brasil
Manifestação do dia 26 é ato pró-bolsonarismo, contra o Parlamento e contra a reforma da Previdência

Não há dúvida: as manifestações do dia 26 – convocadas inclusive por filhos do presidente (logo, por Jair Bolsonaro) – são antidemocráticas, essencialmente antipolíticas, como só pode ser quando se pretende intimidar e emparedar um Poder da República; no caso, o Congresso Federal, apregoado como inimigo do projeto autoritário de pureza simbolizado pela vitória bolsonarista na eleição de 2018.

Por isso mesmo, por encarnarem o “nós contra eles” que alimenta o bolsonarismo e que opõe governo virtuoso e conectado ao povo e sindicato do crime (como é tipificado o Parlamento), as manifestações são também – dúvida não há – atos pró-governo; algo que não se tem no Brasil desde o período lulopetista, e que faz ascender, na figura de algumas lideranças caminhoneiras a serviço, o que se pode projetar como o MST do bolsonarismo, agente (não raro armado) para o amedrontamento e com comprovada capacidade de interditar o país (e de se deixar instrumentalizar por interesses partidários, vide maio de 2018 e a maneira como Bolsonaro surfou eleitoralmente aquela onda).

Sejamos claros e diretos: a responsabilidade por essa aposta no caos – por mais esse financiamento ao conflito institucional – é do presidente, que chancela um ato obviamente hostil ao próprio princípio da República, o da independência entre Poderes. Quem tiver lido o texto indigente que Bolsonaro compartilhou na última sexta pôde perceber o lugar que procura para si com vistas ao dia 26: o de vítima do establishment, esse mal onipresente que não o deixaria trabalhar – com o bolsonarismo no poder, não tardaria mesmo para que o establishment, essa Geni, também servisse de desculpa para incompetência.

E – parêntesis importante – não me venham com a mentira de que as manifestações pedem a aprovação da reforma da Previdência. É balela. Um protesto que trata o Parlamento – casa onde se deve votar a emenda – como lugar de bandidos e abriga discursos de fechamento do Congresso organiza-se, até uma toupeira pode compreender isto, para sufocar qualquer pacote reformista.

A ambição das manifestações revolucionárias é simples e tem história. Deriva da eterna pretensão populista de falar diretamente ao povo, sem intermediários, esmagando forças identificadas como autônomas – conforme se vê, hoje, por exemplo, na Venezuela: investindo numa espécie de democracia direta, visando a um governo de natureza plebiscitária, tenta-se manter mobilizada parte da população, como se em campanha permanente, para tanto acusando ameaças e apontando conspirações, processo que outro objetivo não tem do que enfraquecer as instituições que dão ponderação, equilíbrio, ao jogo de pesos do poder.

O bolsonarismo opera assim: forja inimigos, fabrica crises, investe no confronto, faz-se de vítima e convoca manifestação contra o enredo que concebeu. O próprio ciclo autoritário cuja prosperidade depende da conflagração institucional.

Eduardo Bolsonaro, deputado federal, membro da nova corte, futuro do projeto de poder bolsonarista e auto-atribuído “corregedor moral” de parlamentares, escreveu – para que não tenhamos dúvida, aliás, de que fala desde cima: “Estaremos de olho para divulgar os resultados e a conduta dos deputados (…)” Isso tem método: semeia desconfiança, a senha para que milícias digitais partam ao serviço sujo da intimidação explícita.

É espantosa a quantidade de incultura e de arbitrariedades contidas no ânimo desses revolucionários e oportunistas – barbárie que se pode resumir assim, esquematicamente: Jair Bolsonaro assumiu compromissos durante a campanha; foi eleito; o Parlamento tem de entregar o que o presidente deseja; ponto final. Isto como se o Parlamento fosse mero carimbador de demandas de governante; como se não tivesse sido igualmente eleito e consistisse num Poder independente.

O bolsonarismo, fenômeno que quer minar a democracia representativa, trabalhou muito, ao longo dos últimos meses, na preparação desse ataque ao equilíbrio institucional – o maior exemplo dessa empresa sendo a forma como distorceu o sentido do que seja articulação política, a joia na coroa bolsonarista da criminalização da atividade política. Planejada longamente, a aposta está feita. A nova sangria de um país paralisado, contratada. A dúvida é sobre com que intensidade afundaremos agora na depressão política em que nos cultivamos desde 2012. A resposta passa pelo modo como reagirá o Congresso.

Não será bonito, porque o bolsonarismo se crê cacifado para esticar a corda e radicalizar; mas me parece claro, dadas já as condições para o Parlamentarismo informal, que o Legislativo tentará tomar as rédeas do processo político e acelerar – com senso de urgência – o avanço de uma agenda própria, apartada de Jair Bolsonaro e voltada quase que exclusivamente à economia, tocada numa espécie de sociedade tácita com o que chamo de “governo Guedes”. Uma equação que não é mansa (o bolsonarismo não aceitará qualquer poda a seu ímpeto autoritário), mas que já conta com o entusiasmo decisivo dos chamados mercados.

A semana será feia.