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O erro e o vício das manifestações do dia 26

O erro e o vício das manifestações do dia 26

As manifestações chapa-branca convocadas para o dia 26 de maio, atos pró-governo e contra o Congresso Federal, têm dois problemas a serem destacados: um é prático, objetivo, imediato; o outro, o vício fundamental do qual o primeiro é produto.

O primeiro equívoco, circunstancial, é o menos importante: o erro político em que consiste o governo, na figura do presidente Bolsonaro, apoiar e mesmo estimular um ataque a um Poder da República, o Parlamento, do qual precisará, necessidade legítima e de natureza democrática, caso queira fazer avançar sua agenda de reformas – particularmente, dada a urgência da descompressão fiscal, a reforma da Previdência. O Congresso não é despachante de governo.

Em termos políticos, com base no equilíbrio de forças que sustenta nossas instituições, não há o menor sentido – faltando três anos e meio de governo – em cultivar o Legislativo como inimigo. É contraproducente. Para ser direto: burrice; estupidez com efeito paralisante. Ou alguém acredita que aquilo que se projeta para domingo – protesto que têm a atividade política como alvo criminalizado – pode ajudar a reforma previdenciária a prosperar?

Se, de resto, o sujeito é deputado federal ou senador, e não é um Bolsonaro, apoiar esse disparate – essa investida revolucionária contra a Casa que integra, ainda ao quarto mês de legislatura – é assumir ao mesmo tempo a própria incompetência para o cargo a que foi eleito e exprimir ao mundo que não tem a mais mínima ideia sobre o que seja o ofício de um parlamentar.

O segundo problema, a degeneração original, é a anomalia fundadora, a própria gênese das manifestações de domingo: a ideia de que o pobre Bolsonaro, governante diretamente conectado ao povo, seja vítima do establishment, a força retrograda que, materializada no Congresso, atua para não deixá-lo produzir, o coitado.

A lógica basilar do bolsonarismo é transparente e está contida em todas as convocações para os atos do dia 26 – cultura consistente com o movimento de ascensão do nacional-populismo mundo afora, notadamente na Europa: a de que o Parlamento é um organismo essencialmente nocivo, com cujo qualquer contato será tóxico, e que deve ser isolado e esmagado sempre que não se curvar ao desejo do governante-mito – a personificação do povo.

Neste arranjo revolucionário, claro, não sobra espaço para a política, com prejuízo – o mais lamentável – para o ambiente de convívio social. Sobra, porém, imenso campo para que governo e governante justifiquem (ou camuflem) a própria incompetência, a clamorosa inoperância.

Insistirei no que escrevi acerca daquele texto indigente compartilhado por Bolsonaro na última sexta; movimento, aliás, preparatório para o dia 26. O presidente tem muito poder e meios de governar desde que se comporte como chefe do Executivo, o que significará ter de se articular – sim, politicamente – com as demais instituições republicanas. A se comportar como imperador, que é o lugar em que a origem das manifestações o vê, não terá bom paradeiro.

Há nessa compreensão influente – a de Bolsonaro como soberano – a deturpação do que sejam independência e ponderação entre poderes, daí por que prospere o discurso autoritário de que o Parlamento tem de fazer, como mero carimbador, o que o presidente quer; como se houvesse uma hierarquia (na verdade, o bolsonarismo se move para submeter o Legislativo) e como se o Congresso não fosse igualmente eleito e formalmente apetrechado para ter agenda própria.

Já desenhei o esquema, o ciclo discursivo, que alicerça essa vitimização autoritária e obviamente artificial – mas não custa repetir: o bolsonarismo forja inimigos, dinamita o valor da atividade política, investe no confronto com adversários imaginários, então se faz de vítima do que inventou e convoca manifestação contra o enredo que concebeu.

O alvo mais urgente, aquilo que se quer subjugar de partida, é a vitalidade da democracia representativa. O próprio estado da arte de um projeto de poder reacionário: o financiamento, pelo chefe de governo, a uma espécie de democracia direta – não muito distante da farsa plebiscitária que destruiu qualquer institucionalidade na Venezuela – por meio da qual, sob a narrativa do coitadismo, mobilizar a população acusando conspirações urdidas por aqueles que compõem a estabilidade republicana.

É gravíssimo que o presidente seja artífice de uma concertação que trabalha para minar aquela que é a Casa do Povo; mas assim é porque o bolsonarismo não pode admitir a plena existência de qualquer força que entenda como minimamente autônoma, e é no Parlamento que se concentra o maior volume de votos dos brasileiros.

Nesta altura, pouca importa o tamanho das manifestações, projeção difícil de fazer; mas a possibilidade de que se tenha alcançado um ponto de não-retorno ainda aos cinco meses de um governo.