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Caso Moro: botando a bola no chão

Aluísio Mauricio / Estadão Conteúdo
Caso Moro: botando a bola no chão

Mais uma vez, ante a projeção de uma reforma estrutural poderosa, uma cuja aprovação contrariaria interesses e privilégios de classe, solta-se uma bomba com potencial efeito paralisador. Mais uma vez, o episódio envolve o Ministério Público. É preciso considerar a história. Avaliar intenções. A reforma previdenciária estava pronta para ser votada, em maio de 2017, quando Rodrigo Janot, procurador-geral da República, detonou os explosivos da delação de Joesley Batista e turma. O resultado, conhecido, aprofundou o fosso da depressão político-econômica do Brasil.

Terá o caso Moro uma lâmina capaz de ceifar a reforma da Previdência de Paulo Guedes? Ainda não é possível responder, mas as barbas devem ser colocadas de molho. O motivo é simples e preocupante: não sabemos o que está por vir tanto quanto sempre soubemos que o cisne-negro estava contratado.

Chego a um ponto delicado aqui, de que tratei ontem – mas que avalio necessário retomar em texto. Na forma da pergunta que me fiz, que me faço: como editor que também sou, eu publicaria o conteúdo divulgado pelo Intercept? A resposta é não. Porque os meios não apenas interessam como são decisivos; e o jornalismo em que acredito não se vale de material obtido de maneira ilegal. Para que fique claro: não criminalizo a escolha – legítima, jornalisticamente defensável – por publicar os conteúdos. Muita gente boa, que respeito, faria o mesmo. Apenas registro que eu não.

Desprezo, como sabido, o fenômeno vazador seletivo de conteúdos privados/sigilosos, uma corrida que não tardaria a nos afundar na lama, por exemplo, da invasão de celulares e do assalto a informações ali abrigadas. Qual será o próximo passo?

Em termos jornalísticos, é necessário dizer que essa cultura vazadora-denuncista resultou em alguma acomodação – e não será exagero afirmar que sequestrou algo da vitalidade do ofício, substituindo as agruras da investigação-apuração pela facilidade de receber furos mastigados desde a mão de autoridades e advogados. Até quando vamo assim? Até onde?

Relativamente ao material divulgado pelo Intercept, duas questões – que são escolhas editoriais – merecem críticas; porque as considero falhas de procedimento. Antes de tudo, o fato de não estar disponível – para a inequívoca contextualização – a íntegra das conversas das quais os trechos foram extraídos. A ideia de que alguém as esteja editando – selecionando essa e aquela parte – reforça a natureza seletiva, com grande viés para condenação dos citados, que o jornalismo deveria evitar; tanto mais quando tratando de assunto tão sensível. É importante pensar a respeito à luz da informação, oferecida pelo próprio Intercept, de que o volume de conteúdos que recebeu e estoca seria gigantesco, sendo a parte já exposta uma pequena amostra.

Qual a razão – a segunda crítica que faço – de não termos todo esse material já tornado público? A que serve esse suspense editorial sob um país já institucionalmente instável? É irresponsável ministrar a conta-gotas, como num folhetim, pílulas de um material já reunido e que tem corpo para travar o país, um efeito que só se agrava sob a ansiedade e a insegurança próprios à condição de quem precisar andar mas não enxerga o chão.

Objetivamente: que pacote reformista estrutural poderá prosperar sob tamanha instabilidade? Voltando ao início do artigo: como não refletir sobre se, entre as intenções de se haver disseminado o conteúdo, não estaria – para além do fim jornalístico – a de impedir a reforma da Previdência? Qual outra intenção haveria? Soltar Lula? Especulo – especulo mesmo – para reforçar o caráter especulativo de quando a informação se converte em novela.

Um trecho do editorial de Intercept sobre a divulgação das conversas merece especial exame:

A bem da verdade, ao produzir reportagens a partir desses arquivos, somos guiados pela mesma argumentação que levou boa parte da sociedade brasileira – aí incluídos alguns jornalistas, comentaristas políticos e ativistas – a aplaudir a publicidade determinada pelo então juiz Moro das conversas telefônicas privadas entre a presidente Dilma Rousseff e seu antecessor Luiz Inácio Lula da Silva (em que discutiam a possibilidade do ex-presidente se tornar ministro da Casa Civil), logo reproduzidas por inúmeros veículos de mídia. A divulgação dessas ligações privadas foi crucial para virar a opinião do público contra o PT, ajudando a preparar o terreno para o impeachment de Dilma em 2016 e a prisão de Lula em 2018. O princípio invocado para justificar essa divulgação foi o mesmo a que estamos aderindo em nossas reportagens sobre esse acervo: o de que uma democracia é mais saudável quando ações de relevância levadas a cabo em segredo por figuras políticas poderosas são reveladas ao público.

O Intercept claramente associa – e é legítimo fazê-lo – a decisão de Moro, aquela que liberou os áudios das conversas entre Lula e Dilma Rousseff, a uma intenção política, para interferência direta no processo político: ato “crucial para virar a opinião do público contra o PT, ajudando a preparar o terreno para o impeachment de Dilma em 2016 e a prisão de Lula em 2018.” Por isso mesmo, o Intercept sempre condenou – e não sem razão – a operação por meio da qual Moro dera publicidade às conversas.

De modo que: ou a coisa é errada sempre, sem subordinação ao oportunismo partidário de ocasião, ou se assume a condição de militante e se vai mesmo à forra. Fica prejudicada, nesse caso, qualquer invocação de princípio. Porque – digo eu – a democracia é mais saudável quando ações de relevância levadas a cabo em segredo por figuras políticas poderosas são reveladas ao público sem, acrescento, o sacrifício dos direitos individuais e a genuflexão a agendas ideológicas.

Nada disso, contudo, torna inexistente o fato de que os conteúdos existem. E de que não são bons para Moro. É evidente que, com base no que se tem até agora, não há elementos para se pedir anulação da sentença contra Lula.

Isso não significa, no entanto, que o então juiz não tenha incorrido em desvio ético. A leitura das conversas seguida de rápida olhada no que versam a Constituição e o Codigo da Magistratura impõe reconhecer que o hoje ministro da Justiça exorbitou; e constatar que, ora sendo um político, membro de um governo, as consequências do erro serão políticas, o equívoco explorado pelos adversários de Bolsonaro e por aqueles que veem na circunstância um gancho para tentar minar a Lava Jato.

É do jogo.